SISTEMA DEFENSIVO: EVOLUÇÃO ORGÂNICA OU ALEATÓRIA?

Paulo César Carpegiani chegou à Toca do Leão, CT do Vitória, prometendo muito trabalho para tentar ajustar os erros que tornaram o time baiano a pior defesa do Campeonato Brasileiro. Menos de 30 dias após o início dos treinamentos, a equipe conseguiu não sofrer gols em 4 partidas. A maior sequência de clean sheet do Vitória na Séria A. E mesmo alcançando a estabilidade defensiva, Carpegiani viu a equipe sofrer críticas referentes ao desempenho. Muitos colocaram em xeque a evolução do sistema defensivo. Mas afinal, o crescimento do sistema defensivo do Vitória se dá de forma orgânica ou aleatória?

Nos 7 jogos à frente do Leão da Barra, o técnico Carpegiani utilizou 5 formações diferentes. Na estreia diante do Flamengo optou por um 1-4-3-2-1 para preencher o meio-campo e evitar as associações entre Diego, Éverton Ribeiro, Paquetá, Vitnho e Cuéllar. Em casa contra o Palmeiras iniciou no 1-4-1-4-1 para tentar diminuir os espaços entrelinhas. Na rodada seguinte decidiu espelhar a equipe ao Atlético-MG no 1-4-2-3-1. Contra o América-MG voltou a repetir a formação anterior. No Maracanã, diante do Fluminense e com alguns desfalques optou por iniciar no tradicional 1-4-4-2. E nas duas últimas partidas, contra o Vasco e Ceará, mandou a campo o time no 1-4-3-3.

Fonte: Footstats

Fonte: Footstats

As variações do sistema tático não implicam em dizer que a plataforma de jogo, ou seja, as ideias que o treinador aplica nos treinamentos e incuti nos jogadores têm mudado a cada partida. A ideia que norteia o trabalho de Carpegiani no Vitória é a de marcação forte em 2 linhas de 4, pressing constante no portador da bola, recuperar a posse e sair em velocidade. Claro, ocorrerá algum ajuste à depender do que o contexto da partida pedir. Por exemplo, diante de América-MG e Vasco o time tinha uma necessidade de propositividade maior da qual teve nas partidas contra Flamengo, Palmeiras, Atlético-MG e Fluminense.

Fonte: Footstats

Fonte: Footstats

Se a estatística aponta para uma redução pujante de gols sofridos na ordem de 200%, o acaso não deve ser tido como o único fator. Muito se deve também por possuir ideias e padrões defensivos em cada fase do jogo. Seja no momento defensivo, na transição defensiva ou nas bolas paradas.

O Footurefc realizou uma análise dos comportamentos do sistema defensivo em todas as fases que o compõe e encontrou alguns padrões que podem elucidar as razões pelas quais o Vitória tem sofrido poucos gols no returno do Campeonato Brasileiro. Além disso, através de levantamentos quantitativos e qualitativos observou-se que outros fatores têm corroborado para o equilíbrio defensivo.

PADRÕES DEFENSIVOS

Momento Defensivo

O momento defensivo se caracteriza por ter os 11 jogadores atrás da linha da bola e instalados no campo de defesa. O Vitória marca por zona, ou seja, a referência para a ativar marcação é o espaço e a bola. Quando o portador da bola entra em determinados setores o jogador que é responsável por “proteger” tal área, imediatamente inicia uma perseguição curta até que haja a troca de zona e marcador ou ocorra a “morte” da jogada com uma falta ou desarme. No frame acima, é possível ter uma dimensão da dinâmica de marcação realizada pelo Vitória quando está em fase defensiva. O time se posta em 2 linhas de 4 e busca inibir ao máximo a entrada do passe pelo corredor central. A todo momento é possível observar a indução do adversário para os corredores laterais. Pois é nesta faixa de campo que o Vitória possui o maior índice de desarmes. Somando os desarmes realizados nos corredores direito e esquerdo de meio-campo e defesa – na “Era Carpegiani” – são 80 jogadas desconstruídas de um total de 115. Isto é, cerca de 80% dos desarmes ocorrem nas faixas laterais de campo.

Transição Defensiva

Imagem_434

A transição defensiva é a fase do jogo que está entre a organização ofensiva e defensiva. Ela se caracteriza pela perda da bola no momento ofensivo e transcorre nos instantes que precedem a ocupação do campo defensivo com todos jogadores atrás da linha da bola dando início a organização defensiva. No frame acima, após passe errado, o volante Rodrigo Andrade realiza o perde-pressiona para retardar a transição ofensiva adversária, enquanto os demais atletas retornam a posição inicial. Esse comportamento está bem cristalino para os jogadores que ao perder a posse de bola já buscam recuperá-la ou retardar o adversário. Entretanto, é importante ressaltar que algumas vezes existem erros de execução.

Bola Parada

Imagem_126

A bola parada é considerada o 5º momento do jogo. E possui importância igual ou até maior dentro do contexto das partidas. Existem 3 tipos de marcação: individual, zona e mista. Como critério foi utilizado a predominância de jogadores no modelo por zona ou individual. Do contrário, todas as marcações teriam de ser consideradas “mistas”, porque é muito raro encontrar uma equipe – por exemplo – que faça encaixes individuais em escanteios e abra mão de 2 ou 3 jogadores distribuídos em zonas. O técnico Carpegiani opta por predominantemente realizar uma marcação zona. Como é possível observar no frame acima, são 5 jogadores marcando em zona. O nº 1 protege a 1º trave, os números 2 e 3 estão na pequena área para evitar que a bola passe por alí. O 4º jogador está no meio da defesa e o último protegendo a 2º trave. Apesar de ter a maioria dos jogadores marcando por zona, Carpegiani não abre mão de ter 3 jogadores marcando individual para realizar o bloqueio. Além disso, posiciona dois atletas para esperar o rebote.

Vivacidade

Fonte: Footstats

Fonte: Footstats

Um fator que está intrinsecamente ligado com a melhora defensiva do Vitória é a diminuição da média de idade dos atletas. Desde que assumiu o comando técnico, Paulo César Carpegiani tem oportunizado chances aos jogadores mais jovens. Contra o Flamengo a média de idade do time titular foi de 23,9 anos, diante do Palmeiras 23,6, no enfrentamento com o Atlético-MG e América-MG as médias foram as mais baixas da temporada: 22,9 e 21,8 anos respectivamente. E o “ganho de fôlego” tem dado resultado. Nos últimos 7 jogos, o Vitória teve um crescimento de 52,3% no fundamento de desarmes em comparação com os 18 jogos sob o comando de Vagner Mancini. Outro dado que demonstra o elo entre a vivacidade e o equilíbrio defensivo, está na média de gols sofrido: 0,86 gols/jogo. Uma redução de 232% . E como resultado, o Leão da Barra alcançou a marca de 4 jogos sem sofrer gols.

Ativação do goleiro

RONALDO

Foto: Maurícia da Matta/Esporte Clube Vitória

Com a chegada de Carpegiani o número de intervenções de alto grau de dificuldade por parte do goleiros cresceram. Se antes, os arqueiros do Vitória realizavam em média uma defesa difícil por jogo (1,23), no atual momento a média é de 2,16 defesas difíceis por partida. Um aumento de 75% nas ações dos goleiros com destaque para o goleiro Ronaldo. E o aumento da exigência do arqueiro se deve as falhas coletivas e/ou individuais no sistema de marcação, o que é natural, diante de um trabalho com tempo ínfimo e que está em fase de consolidação de ideias. No entanto, o garoto de 22 anos e detentor de uma envergadura de 1,94 cm, tem mostrado segurança ao sair da meta para interceptar os cruzamentos e excelente poder de reação em chutes à queima roupa. Sob o comando de Carpegiani, Ronaldo disputou seis partidas e realizou 24 defesas difíceis, de acordo com o site Cartola FC. Segundo o ex-goleiro e preparador de goleiros, Frans Hoek, existem dois tipos de goleiro: Tipo A (antecipação) e Tipo R (reação). Os goleiros Tipo A, atuam ativamente nos modelos das equipes, efetuando coberturas, interceptações, gerando linhas de passe e etc. Os do Tipo R, são aqueles que as atribuições se resumem à fase defensiva. Dentro desse modelo proposto por Hoek, Ronaldo se enquadra mais fortemente como o goleiro Tipo R (reação). Entretanto, por ser jovem e ter mostrado características pertencentes ao Tipo A, Ronaldo tem potencial para evoluir na posição.

Finalizações Erradas

A retomada do equilíbrio defensivo passa também pelo crescimento em 75% das finalizações erradas dos adversários, ou seja, que não foram no gol, nos últimos 7 jogos. Isso se deve ao comportamento criado a partir dos treinamentos de quando o portador da bola ingressar na zona do marcador, imediatamente tem que ser realizado um encurtamento e uma pressão para recuperar a posse ou ao menos atrapalhar a tomada de decisão.  Outro ponto a ser ressaltado, é a falta de concentração e melhor tomada de decisão dos jogadores rivais que têm contribuído com o momento de estabilidade da defesa rubro-negra.

O Vitória de Paulo César Carpegiani possui uma identidade em construção, mas que já é perceptível. Entretanto, em um campeonato no qual o carrossel de técnicos nunca para de girar e com a necessidade de conseguir resultados esportivos de forma instantânea, a evolução acontece em meio ao caos e não possui mérito unilateral. No futebol todos os stakeholders (time, adversário, arbitragem, acaso e etc) exercem influência e cooperam para a evolução ou involução de uma equipe ou setor.

Um comentário

  • Ygor 28 / 09 / 2018 Responder

    Que análise :o, pelo visto encontrei um novo site pra continuar meu aprendizado sobre futebol, muito bom!

Deixe uma resposta