OS MÉTODOS DO REI MIDAS

Por @EryckWaydson

Mais uma temporada europeia se aproxima e, como é de praxe, os clubes se movimentam freneticamente a fim de montar plantéis que possam brigar por títulos. O mercado passou por um boom desde que Neymar se transferiu ao PSG e, hoje, encontrar um bom jogador é sinônimo de alto gasto. Neste meio, contar com alguém que aparenta ter nascido para negociar é um trunfo que poucas instituições têm. É, Roma, pode olhar para os céus e agradecer. Ramón Rodríguez Verdejo, de 49 anos, conhecido mundialmente como Monchi, é, sem dúvidas, o principal diretor de futebol da atualidade. E no livro El Método Monchi, publicado em 2017, conseguimos entender particularidades e ferramentas que foram utilizadas para que o espanhol se tornasse o dirigente número um do planeta bola. Ah, a trajetória narrada é sobre o recorte à frente do Sevilla.

 

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Livro El Método Monchi, Editora Samarcanda Fonte: Amazon

 

Na temporada 2018/2019, uma das principais transferências da janela foi a ida do goleiro Alisson para o Liverpool. E este é um exemplo concreto de como Monchi trabalha. O arqueiro saiu do Internacional para a Itália por 8 milhões de euros e foi vendido aos ingleses por 62,5. Em resumo, para esta época, foram negociados 11 jogadores por um total de 124,7 milhões de euros e adquiridos 13 por 109,95. Historicamente, a lista de atletas valorizados com a gestão do espanhol é extensa: J. Baptista, Luís Fabiano, Adriano, Daniel Alves, Renato, Sergio Ramos, Gameiro, Bacca, Krychowiak, Rakitic, Salah, entre muitos outros.

 

No prólogo do livro, o jornalista espanhol Axel Torres descreve o dirigente assim:

“Monchi é a realização da bela história das tardes de vídeo-games em nossa infância: assumo a minha equipe na segunda divisão, compro jogadores baratos que só eu sei que são bons, vou vencendo e subindo, e logo os vendo por muitos milhões. Depois, volto ao início do processo e sigo ganhando e ganhando, porque ninguém é tão perspicaz  nem detecta o talento melhor que eu.”

 

A obra é dividida em 30 capítulos que acabam por se tornar um manual para a gestão de um clube. Alguns bem interessantes têm os seguintes títulos:

  • Por que não é uma boa ideia contratar alguém depois de uma Copa do Mundo
  • Verdades e mentiras sobre o processo de adaptação de um atleta
  • Por que Monchi lê todos os dias o jornal de política internacional
  • Como se detecta problemas no vestiário
  • Quando é interessante que a imprensa saiba de uma transferência em curso?
  • Divisões de base: como usar, quando, onde, quanto e por quê?
  • Como se identifica um talento?

 

Legenda: Monchi assumiu a direção com o Sevilla na segunda divisão e saiu de lá multicampeão Fonte: Site oficial da Roma

Legenda: Monchi assumiu a direção com o Sevilla na segunda divisão e saiu de lá multicampeão Fonte: Site oficial da Roma

O jornalista e autor Daniel Pinilla teve a oportunidade de conviver com Monchi, enquanto estava no Sevilla, e nos premia com passagens bem íntimas do diretor. Abaixo, transcrevo três.

 

Sobre Daniel Alves

“É a minha contratação mais completa, que reúne todos os passos: jogador jovem, desconhecido e barato. Se adaptou, foi vencedor e vendemos por muito. Uma operação ideal. E o final da história todo mundo conhece. Depois de uma exitosa trajetória à frente do Sevilla, foi para o Barcelona por 36 milhões de euros, mais bonificações. A vinda dele do Esporte Clube Bahia nos custou 400 mil euros mais uma opção de compra de algo menos que um milhão.”

 

Sobre a perda de Marcelo para o Real Madrid

“Quando você traz cinco jogadores do Brasil por um preço baixo e todos dão excelentes resultados (J. Baptista, Luís Fabiano, Adriano, Daniel Alves e Renato), é normal que outros clubes estejam esperando com a espingarda carregada e o mercado se torne mais inacessível, visto que qualquer novo passo pode causar um encarecimento ou o surgimento de competidores poderosos.”

 

Acabou que o Real Madrid soube que Monchi monitorava o lateral-esquerdo e o contratou imediatamente. Detalhe, o time merengue não acompanhava o atleta e se baseou apenas pelo desejo do diretor.

 

Como montar uma equipe de prospecção de atletas

“Comigo trabalham quinze pessoas e dedicamos um cuidado integral a cada competição. As informações são compiladas da seguinte forma: todo mês fazemos um top-11 de cada torneio e seguimos estes jogadores. Mantemos isso até dezembro, quando compilamos muitos outros na base de dados. A partir daí, aplicamos filtros para tratar de chegar em abril com cento e vinte nomes, com uma média de onze por posição. Logo, começamos a nos aprofundar em cada perfil. Elaboramos um informe técnico-tático, econômico e pessoal – e estas três partes são muito importantes. Na primeira, analisamos questões objetivas que podem ser avaliadas com um bom, mau ou regular: cabeceio, utilização da perna dominante, etc. Daí saem as primeiras conclusões para que se passe do primeiro filtro. Depois, pomos na balança para avaliar os custos da operação, estudando se o preço é conveniente. Por último, tentamos descobrir detalhes da personalidade, motivações, forma de trabalho em grupo. gestão de ego, responsabilidade fora do clube… Dos selecionados, seguimos com uma outra etapa mais personalizada. Digamos que seria a segunda fase do processo. Para tentar minimizar a margem de erro humano, selecionamos sete técnicos do clube para avaliar cada atleta. Damos notas de A a E a cada um. A, é um jogador para trazer de maneira imediata. B, significa que é muito interessante. C, a se acompanhar. D, a se descartar e E, como eu digo, um jogador que precisa se dedicar aos estudos. Quando me oferecem alguém, provavelmente já estará catalogado pelo o meu pessoal.”

 

O livro está disponível na Amazon, em espanhol, e é uma boa pedida para quem quiser entender o método de trabalho do Rei Midas do futebol e sobre todas as particularidades da gestão esportiva dentro de um clube. Como complemento, deixo abaixo uma outra passagem do diretor e um vídeo do TED apresentado por ele, em 2017.

 

“Não podemos cair no vitimismo de criticar a sorte quando ela não nos premia. Seja qual for o resultado de um sorteio, temos que aceitar sem lamentos. O mesmo acontece com erros de arbitragem que te prejudicam ou com um pênalti decisivo que não entra. Da mesma forma, não gostamos quando dizem que o histórico gol de Andrés Palop, em Donetsk, foi um golpe de sorte, pois se tratou de um prêmio pela valentia. Também não podemos nos queixar se um jogador rival provoca um nosso, que acaba sendo expulso, porque estamos na obrigação de trabalhar mentalmente os nossos jogadores para que sejam frios e não caiam nessas armadilhas. A maioria das questões que afetam rendimento não são produtos do azar, são trabalháveis. Existe uma porcentagem muito pequena de sorte real no futebol, que é capaz de determinar o resultado de uma partida e é incontrolável. Mas esta sorte vai em duas direções: às vezes, soma. Outras, derrubam. Isso se combate ganhando partidas. pois vitórias atraem mais vitórias.”

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