O QUE LAMPARD PODE OFERECER AO CHELSEA?

Por Gabriel Belo

Em uma decisão que inegavelmente carrega um gigantesco aspecto passional, Frank Lampard foi anunciado como o novo treinador do Chelsea, substituindo Maurizio Sarri, que comandará a Juventus em 2019/20. Conhecendo o modelo de gestão do Chelsea ao longo de quase duas décadas, não é difícil identificar uma série de trapalhadas, principalmente no que diz respeito justamente ao comando técnico. Nesse sentido, é impossível não torcer o nariz para a escolha por Lampard. Afinal, parece muito novelesco escolher o maior artilheiro da história do clube para assumir uma função em que ele é praticamente um calouro.

Entretanto, ao contrário do que costuma acontecer no clube londrino, essa decisão parece fazer algum sentido. Ao longo da última temporada, foi possível acompanhar um Chelsea que enfrentou uma mudança radical no seu estilo, passando pela troca de Conte por Sarri e a chegada do regista Jorginho. Como era de se esperar, nem tudo saiu ótimo na prática, porém   o balanço foi positivo. Uma temporada, na realidade, é muito pouco para a aplicação de um jogo tão complexo, e nunca saberemos o que poderia ter sido o trabalho de Sarri no Chelsea a longo prazo.

Bem, se a passagem de bastão entre italianos pareceu muito brusca, agora temos um caminho um pouco diferente. Frank Lampard tem uma pitada de Maurizio Sarri na sua forma de entender o jogo, principalmente na organização ofensiva. Existem algumas diferenças mais claras, evidentemente, mas é bom ressaltar que não estamos falando de dois extremos.

A temporada no Derby County

Como contexto geral, o Derby, sob o comando de Lampard, terminou a temporada na sexta colocação da Championship, com 74 pontos em 46 partidas (20V, 14E e 12D). Classificado para os playoffs da liga nacional, o time passou pelo favorito Leeds United e esteve perto do acesso para a Premier League, perdendo a decisão da vaga para o Aston Villa. Na Copa da Liga Inglesa, parou na quarta fase, caindo para o Chelsea. Anteriormente, o Derby eliminou o Manchester United nos pênaltis. Na FA Cup, o time foi eliminado na quinta fase, diante do Brighton. Antes, porém, outra equipe da primeira divisão, o Southampton, acabou sendo eliminada pelo Derby.

 

Mason Mount foi um dos destaques do Derby County.

Mason Mount foi um dos destaques do Derby County.

 

Lampard, de certa forma, comandou uma mudança na maneira de pensar o jogo. Comparando com a temporada 17/18 (dados exclusivamente da Championship), quando o treinador foi Gary Rowett, o Derby teve mais posse de bola [55.8% a 46.9%], além de ter balançado as redes mais vezes [74 a 71]. Como consequência, mais gols foram sofridos [59 contra 50]. Houve, com Lampard, uma média de 400.6 passes por partida, sendo a sexta melhor equipe do campeonato nesta estatística.

Embora o treinador tenha usado predominantemente um sistema 4-3-3, ele também resgatou frequentemente o 4-2-3-1, que apareceu em 19 ocasiões diferentes no campeonato. Essa mudança se passou primordialmente por uma alteração na função de Mason Mount, que demonstrou, mesmo muito jovem, uma ótima dinâmica na compreensão de seus papéis em campo.

Dessa forma, Lampard teve um ano de alguns feitos no comando do Derby. Conseguiu desenhar um modelo interessante de jogo, trabalhar no desenvolvimento de jovens e colocar sua equipe em um bom patamar de disputa, tanto “regularmente”, na liga, quanto em partidas eliminatórias, como nos confrontos diante de Manchester United, Leeds e Southampton, quando, inclusive, mostrou que está aberto a desenhar um plano tático diferente sem abrir mão do que existe de primordial na sua ideia de jogo.

Taticamente

Um ponto que diferencia Lampard está no fato de seu time tentar pressionar a bola em praticamente todas as áreas do campo, com destaque para o terço médio. O Derby ficou em segundo lugar na Championship em Passes por Ação Defensiva com 8.2. Essa estatística mede o número de passes permitidos por uma equipe antes da recuperação da posse de bola. Ou seja, quanto menor o número de passes permitidos, mais agressiva a marcação. Só o Leeds de Bielsa ficou na frente.

O congestionamento das áreas centrais foi uma característica marcante do trabalho de Lampard, fazendo com que o adversário ataque principalmente pelas laterais do campo. A organização defensiva, independente do esquema escolhido no início da partida, é no 4-4-2, com um dos interiores se deslocando e defendendo lateralmente. Isso faz com que um dos pontas e o centroavante fiquem engatilhados para o contra-ataque.

 

Lampard gosta de congestionar o centro do campo.

Lampard gosta de congestionar o centro do campo.

 

Ofensivamente, o Derby busca, muitas vezes, construir suas jogadas nas costas dos defensores, atacando os espaços livres enquanto a bola está em outros setores. Jack Marriot, por exemplo, que foi o centroavante titular do Derby na maior da temporada, é peça chave nesse entendimento, sendo um centroavante muito móvel, que abre bastante espaço para uma movimentação dinâmica dos pontas e dos interiores. Marriot se acostumou a atacar os espaços quando os seus companheiros se aproximavam do terço final do campo, exercendo, assim, uma função tática fundamental.

Por mais que utilize um esquema parecido – na maioria das vezes – com aquele que o torcedor do Chelsea acostumou a ver com Sarri, Lampard parece ter a tendência a buscar um jogo mais veloz e frenético, trabalhando na tentativa de soluções mais rápidas nas proximidades do gol, enquanto o italiano comandava o time como uma orquestra, cadenciando e esperando o momento do abate, tendo em Jorginho o seu alter ego dentro de campo. Ambos os estilos têm seus pontos fortes e fracos. Mas compartilham o gosto pela posse de bola.

 

A saída de bola do Derby.

A saída de bola do Derby.

 

Como os pontos fortes de Lampard já foram citados, é hora de tocar um pouco na ferida. Seu time foi um dos menos eficientes da última Championship no sentido da conversão direta de oportunidades criadas em gols. O Derby não criou, ao longo da temporada, um número exatamente satisfatório de chances claras nas partidas.

Além disso, o adversário ao vencer a marcação frenética do meio-campo, acaba tendo algum espaço para desenvolver o ataque, e assim o Derby acabou sendo, também, uma equipe que permitiu muitas chances. E, até por isso, é notável que o time não conseguiu se destacar na última temporada nem em número de gols marcados e nem como defesa pouco vazada. Foi feito, no entanto, o suficiente para figurar no top-10 de estatísticas nos dois quesitos, o que é relevante em uma liga de 24 times.

 

A equipe gostava muito de perseguições individuais por todo campo.

A equipe gostava muito de perseguições individuais por todo campo.

 

Legado para o trabalho no Chelsea

Como é de conhecimento geral, o Chelsea passará a próxima janela de transferências chupando o dedo. Além de Pulisic, que havia sido comprado em janeiro, e Kovacic, que acertou sua transferência em definitivo após uma temporada de empréstimo, os reforços dos Blues para a temporada serão jogadores que estavam emprestados para outros clubes.

Essa notícia, entretanto, já pareceu mais assustadora. E é até irônico pensar no transfer ban como uma oportunidade, já que o Chelsea, historicamente, não aproveita bem os seus talentos, que acabam fazendo carreira em outros clubes. Jody Morris, braço direito de Lampard, trabalhou com as equipes sub-18 e sub-21 do Chelsea em um passado recente e pode ser fundamental no trabalho que está prestes a começar.

Lampard teve sucesso ao trabalhar um núcleo jovem no Derby County e terá que repetir a tarefa, agora em um cenário de maior pressão. E algumas das novidades vem diretamente do Derby. O zagueiro Tomori foi eleito o jogador da temporada na equipe da segunda divisão e agora retorna de empréstimo, sendo inicialmente uma opção no banco de reservas.

Mason Mount, figura fundamental no meio-campo do Derby vem de uma fantástica temporada de nove gols e quatro assistências, além de ter contabilizado 71 passes-chave durante a Championship. Mount é um dos que pode almejar até a titularidade. Nesse mesmo time, temos o lateral-direito Reece James, que impressionou no Wigan, e o atacante Tammy Abraham, artilheiro do Aston Villa na campanha do acesso. Ambos já demonstraram o suficiente para ter a oportunidade de trabalhar em um nível de maior exigência. Existem, ainda, outros nomes relevantes (e já mais experientes) que também poderiam ser aproveitados, mas ainda não tem futuro certo dentro dos Blues: Bakayoko, Morata, Batshuayi, Musonda, Zouma, Omeruo, Brown, Baker, Moses, Pasalic, Kenedy e Baba Rahman.

A temporada 2019/20 certamente será bem diferente para o Chelsea, e a compreensão do torcedor será fundamental no desenvolvimento do trabalho. Nesse sentido, Lampard pode, por sua idolatria e respeito dentro da instituição, ser uma das únicas figuras possíveis para administrar um ambiente e uma rotina que dificilmente será de resultados positivos a todo o momento. É uma nova fase do Chelsea, e essa pode ser a primeira temporada de um ciclo de renovação, que começa pela saída de Eden Hazard, um dos grandes ídolos do clube. É o momento do trabalhar o surgimento de novas narrativas, o que se passa pela lapidação de futuras estrelas. E Lampard, agora técnico, pode ser uma delas.

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