O MELHOR E O PIOR DO BRASIL

Por Valter Júnior

Jornalista, é editor de esportes do jornal Metro de Porto Alegre

No exterior a imagem que reflete o Brasil é a do Rio de Janeiro. A Cidade Maravilhosa cheia de encantos mil tem a beleza e a alegria do povo brasileiro, mas a violência, as drogas e a pobreza, entre outros problemas, também fazem parte da paisagem. Dependendo do humor do estrangeiro, um Brasil diferente será retratado. Alguns preferem exaltar o samba, o calor, a praia, a caipirinha. Outros optam por falar das inúmeras mazelas. Neymar é como o Rio de Janeiro no futebol. Apresenta o melhor e o pior do que a fábrica brasileira de produzir jogadores pode formar. Assim como uma caminhada de uma hora e meia no calçadão de Copacabana em que é possível ver dois lados do Rio, numa única partida de futebol se pode ver tudo o que Neymar pode oferecer.

Dono de uma habilidade rara, Neymar é o samba com a bola nos pés. Seu chute certeiro é como um dia ensolarado à beira-mar. Começa a dar sinais durante a Copa do Mundo, auxiliado pelas eliminações precoces de Messi e Cristiano Ronaldo, que pode se tornar o melhor do mundo em breve. Seu surpreendente toque de calcanhar para o Willian foi uma jogada com o improviso com que os brasileiros levam a vida para superar as dificuldades.

Apesar do passe extraordinário, marcar um gol e conceder uma assistência, Neymar tem sido debatido mais pelos seus defeitos do que por suas virtudes após a vitória sobre o México. Os elogios feitos ao brasileiro pela imprensa estrangeira estão embalados por críticas relativas às suas péssimas atuações cênicas. No começo do Mundial, o número acentuado de quedas nos dois primeiros jogos do Brasil gerou críticas. Nas oitavas de final, as reclamações se apoiam em sua reação após sofrer um pisão fora de campo de Layún.

De vítima, Neymar virou agente de um novo ato capaz de ofuscar o primeiro. A teatralidade é um vício de Neymar. Os adversários são os traficantes que alimentam a dependência do atacante. Eles entregam para o jogador do PSG a falta que ele quer sofrer. O brasileiro sofre a falta e, com movimentos de ginástica, com direito a saltos e piruetas, faz um show na sequência. O escarcéu e as simulações feitos após as pancadas recebidas é uma droga a ser combatida no futebol brasileiro, uma fábrica do joga-bonito e do simula-feio. Hipócrita por querer que os outros vejam o que não aconteceu, a simulação é a pobreza da bola, principalmente quando vem de alguém que tem tanto a oferecer como Neymar.

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Lógico, não é fácil ser Neymar em campo. São sofridas faltas atrás de faltas de jogadores que sequer cogitam pegar a bola, ela se torna mera coadjuvante na jogada. É quase impossível apanhar calado. Como ensinou Dunga, quem bate esquece, quem apanha não esquece.  O atacante brasileiro deve ter uma mapa de cicatrizes espalhados por suas pernas. A simulação, entretanto, não se transformou em uma forma de defesa como ele tenta fazer parecer. As encenações se transformaram em um ponto de interrogação para os árbitros. Os homens do apito precisam ponderar a cada dividida o quanto há de realidade e o quanto há de fingimento nos lances que envolvem o camisa 10 de Tite.

No caso específico de Layún, Neymar sofreu um pisão. Fingiu ter sido atropelado por um caminhão. Instantes depois, levantou-se e foi jogar bola como se nada tivesse acontecido. O seu histórico pesou contra ele. Um lance para expulsão, mas uma atuação que deu margem para a dúvida. A teatralidade constante nas faltas recebidas deixa a arbitragem ressabiada. Prejudica a ele e ao seu time por consequência. Como diz Pompeia, mulher de Júlio César, não basta ser honesto, é preciso parecer honesto. Neymar precisa também parecer honesto quanto é derrubado. Não satisfeito com a vantagem técnica que tem sobre seus marcadores, o ex-santista quer levar vantagem na reclamação e na punição ao adversário.

Esse contraste do craque com o dublê de ator faz Neymar ser o personagem que é. Ele não é um nem outro. É a soma dos dois. Neymar não deixa de ser um pouco o reflexo do melhor e do pior do Brasil.

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