‘’NÃO ATIRE, SOU JOGADOR DE FUTEBOL”

Por Antonio Duarte

Nascido em Garston, Liverpool, Edwin ‘’Eddie’’ Spicer cedo se destacou nas categorias de base do clube homônimo, no qual foi capitão durante a infância e levantou o troféu de campeão inglês na temporada 1936/37. Ele chutava com as duas pernas, era portador de uma personalidade com grande carisma e natural liderança. Eddie jogava numa posição que ‘’desapareceu’’ nas concepções do futebol atual  – ou que pelo menos ganhou outra denominação e função frente aos diferentes sistemas de jogo de hoje  -, o left-halfback, que traduzido ao pé da letra poder ser interpretado como meia esquerda, mas na verdade funciona como um ala defensivo ou mesmo lateral na linha de meio-campo.

‘’Eu sempre tive o sonho, desde criança, de fazer do futebol a minha vida, mas nunca imaginei sequer jogar pela equipe principal do Liverpool’’, disse Eddie Spicer quando assinou o seu primeiro contrato profissional com o clube, em 1939. Contudo, a II Guerra Mundial tinha estourado e Eddie era chamado a cumprir dever nos Marines (fuzileiros navais), o que acabou por tardar a sua sequência como jogador profissional de futebol.

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Enquanto servia o seu país, rapidamente foi nomeado tenente pelo seu impulso natural de chefia, algo que também demonstrava em campo. Em 1944, já quase no final da guerra, Eddie escreveu uma carta à sua mãe no qual narrava um episódio caricato que viveu:

‘’Mãe, eu vi um médico sargento-mor alemão preso num dos nossos campos minados na Normandia. Ele fez explodir uma mina e estava bastante machucado na perna. Enquanto eu corria em direção ao local escutei ele gritando: «Não atire, sou um jogador internacional de futebol!». Ele falava um inglês perfeito e disse que era um jogador de futebol profissional na sua terra e que jogou contra vários clubes ingleses. Ele mencionou jogadores ingleses famosos, incluindo Ernie Callaghan, do Aston Villa. Disse ter jogado contra ele em 1937 e que se corresponderam por cartas durante um tempo. Tivemos uma conversa interessante enquanto ele estava sendo cuidado. Se você estivesse lá iria pensar que éramos os melhores amigos. Ele estava obviamente falando a verdade. E quando eu mencionei que eu era jogador do Liverpool, nós conversamos sobre futebol e jogadores durante muito tempo como se fossemos velhos amigos. Muitas vezes me pergunto o que acontecerá com ele depois da guerra.’’

(Esta é uma carta parafraseada com alguns trechos da original, juntamente com recortes de uma entrevista de Eddie Spicer dada a George Harrison da jornal Liverpool Echo, em 1972).

Dois seres humanos em estado puro falando do jogo e da forma como o sentem. Muito provavelmente estiveram ali contra a sua vontade, lutando pelas suas nações, mas num cenário nada humano. Este foi mais um recorte delicioso de pequenos gestos de simplicidade de uma guerra que dizimou milhões e ainda deixou muitas consequências. Rivais no campo de batalha, mas sem perderem a essência do significado ‘’ser humano’’.

Até hoje não se sabe quem era o germânico e Spicer seguiu a sua vida após a guerra acabar. Infelizmente para Eddie, a carreira futebolística não correu como esperava devido a imensos azares. A primeira interrupção da guerra só o deixou começar a competir aos 23 anos de idade. Em 1947, o Liverpool foi campeão inglês com Spicer no elenco. Porém, apesar dos 10 jogos disputados com a camisa do vermelho de Merseyside na primeira divisão, Spicer não conseguiu uma medalha de campeão por não cumprir o requisito mínimo de encontros disputados. Ficou apenas a 4 jogos de o conseguir. Para mim, continua a ser considerado campeão.

Em 1952, durante um tour de pré-temporada na Suécia, Eddie fraturou a perna num jogo contra o Malmö em Estocolmo, que lhe valeu ficar de fora o resto da temporada. No ano seguinte lutou como um leão para recuperar a posição (que disputava com nomes de peso como Bob Paisley – o lendário treinador dos reds, nessa altura ainda jogador -, Phil Taylor ou Bill Shepherd) e conseguiu se manter graças à sua versatilidade, completando 28 jogos.

Aos 31 anos, tudo parecia estar correndo bem quando numa terrível noite em Old Trafford, Eddie disputa uma bola na área com o estreante goleiro do Liverpool, David Underwood, e com o atacante do Man Utd, Tommy Taylor. O resultado foi, novamente, uma perna quebrada em 3 partes e com 19 fraturas em ossos da perna  – a mesma que tinha quebrado 1 ano e meio antes na Suécia. Tudo por Underwood não estar ainda familiarizado com aquele tipo lance, que era habitual entre a equipe e os antigos goleiros. Underwood acabou falhando a bola e acertando a perna de Spicer. Nunca mais voltou a jogar futebol e teve sorte de voltar a andar. Bob Paisley, que estava presente naquele jogo, disse que a perna de Eddie se desintegrou em vários pedaços. E para piorar, embora muito menos importante, o Liverpool acabou perdendo o jogo por 5×1.

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Eddie Spicer (à esquerda) e o craque do Liverpool, Willie Fagan (à direita), em 1948.

Frente aos acontecimentos, em Setembro de 1955, uma equipe combinada entre jogadores do Liverpool e do Everton disputaram um jogo beneficente contra o melhor 11 de Lancashire, onde 41,266 (!) pessoas atenderam em Anfield para Spicer arrecadar £4500 e ajudar no seu tratamento. Aposentado, Eddie se tornou correspondente do Liverpool no Daily Post e foi dono de um pub no norte do País de Gales.

Eddie Spicer faleceu aos 82 anos no dia 25 de Dezembro de 2004 devido a uma doença que já se arrastava há um tempo. Uma grande figura da época que dedicou toda a sua vida ao Liverpool desde as categorias base até ao dia que quase ficou sem perna defendendo o único clube que representou na vida. Passou por vários episódios dramáticos, mas Eddie apenas tinha um desejo: jogar futebol. Se possível, pelo Liverpool.

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«Em momentos como esse, me pego pensando: ‘’De certo modo, foi o futebol que me deu a chance de ter esta alegria na vida’’. E volto em minha memória para aqueles grandes dias em Anfield»  – Eddie Spicer, 1922-2004

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