NA TERRA DAS DEFESAS

Por @BolivarSilveira

Há momentos que o Mundial fala. Você assiste aos jogos, os jogadores e suas composições elucidam tendências e estratégias. Até aqui a Copa do Mundo de 2018 não é diferente, as defesas solidas e os jogos com clean sheets – termo usado quando uma equipe não sofre gols – são o destaque da competição. Não poderia ser muito diferente, as paredes de Moscou e o ar gélido da Rússia estão acostumados a conter ataques desde os anos 40. Não há melhor lugar para demonstrar que uma boa defesa pode valer tanto, quanto um bom ataque.

Antes da Copa do Mundo começar era muito discutido que a linha de 5 seria a tendência defensiva dessa edição. Até aqui, o sistema ainda não é o mais utilizado. Entretanto, o controle do espaço, uma das características da plataforma, tem sido um dos segredos das defesas bem montadas. Limitar o espaço ao oponente, ocupando ou limitando através do impedimento demandam muita organização e coletividade, mas quando bem executada imobiliza o adversário e abala sua confiança, uma das chaves para conquistar esse torneio.

Sim, confiança, nada de tático ou técnico, apenas psicológico. Em uma fase onde se jogam apenas três jogos, não somar pontos ou empatar torna-se perigoso. Quando uma equipe é limitada por uma marcação de controle de espaços, fazendo que os avanços não se concretizem, a confiança baixa. Torna-se desconfortável ter a bola e não progredir. Estratégias como essa foram vistas no jogo da Islândia, na linha 6 do Irã, no Brasil do Tite e no intenso Senegal.

Aliás, como defendem os autores do livro “Os Números do Jogo”, Chris Anderson e David Sally, fazer um gol te garante 0,8 pontos em média, enquanto não sofrer  garante, praticamente, um ponto.  Talvez por isso o clean sheet tenha se tornado uma joia tão almejada no futebol.

“Um gol é mais que nenhum, 1>0, mas não tomar gol é mais valioso que marcar um único gol, 0>1. Só vale a pena investir em atacantes multimilionários se sua retaguarda for sólida” – (C. Anderson e D. Sally).

Não existem regras para um jogo tão esquizofrênico como o futebol, mas podemos criar caminhos para a aleatoriedade acontecer ao nosso favor. Com certeza o clean sheet não é o único caminho para triunfar em uma partida, mas um belo atalho.

Algumas táticas para lograr o controle do espaço e o clean sheet obtiveram sucesso nessa Copa do Mundo, vejamos:

ISLÂNDIA

A seleção viking deu uma amostra do que é o controle do espaço e o fechamento do “funil” na partida contra a Argentina. Postou  sua primeira linha defensiva sob a entrada da área e outra logo em frente com poucos metros de distância para não oferecer espaço para Messi. Reparem também a organização para balançar de acordo com o posicionamento da bola e a busca do equilíbrio quando alguém desgarra da linha.

SENEGAL

Os africanos postularam-se com uma linha de quatro defensores na entrada da área, dificilmente algum jogador quebra a linha para marcar o adversário. Esse papel é dado aos jogadores de meio, sempre pressionando o marcador e equilibrando. Um sai, outro entra no lugar. Um sai, outro entra no lugar. Já pelos lados, para trancar os avanços, os extremos praticaram uma marcação individual inviabilizando uma possível troca de corredor.

IRÃ

A grande surpresa da Copa talvez não seja uma novidade para quem acompanha o trabalho do treinador Carlos Queiroz. O Irã antes de enfrentar Portugal não perdia desde 2014 e muito por sua eficácia defensiva. Nas eliminatórias sofreu apenas dois gols em dez jogos, obtendo clean sheet em nove partidas.  A mecânica defensiva foi composta por uma inovadora linha de 6 seguida por um volante para cobrir a pressão exercida pela ultima linha. Uma plataforma defensiva configurada em 6-1-3.

BRASIL

Os comandados por Tite não obtiveram um grande desempenho contra a qualificada Suiça, entretanto a seleção canarinho consolidou durante as eliminatórias uma fase defensiva que merece ser destacada. Até porque o Brasil foi a seleção com maior número de jogos sem sofrer gols nas qualificações para o torneio.

Formatado no 4-1-4-1, a primeira linha postula-se exatamente no risco da área e tem a sua frente Casemiro para cobrir qualquer jogador que consiga ultrapassar a primeira linha de marcação, que se caracteriza por pressionar o portador.  A ideia principal de Tite com esse sistema é fechar o Funil, nominação dada para a região central na entrada da grande área. Mas para essa tática funcionar é necessário equilíbrio nas posições para não sobrar espaço e muita pressão no portador.

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