MANO MENEZES QUER CONTRARIAR A REGRA DE UM HÚNGARO EM 2019, QUAIS AS IMPRESSÕES APÓS O CLÁSSICO

Por Léo Gomide

Bélla Guttmann (1889 – 1981) foi um ex jogador e treinador húngaro. Entre os principais feitos como técnico, Guttmann colocou no currículo a descoberta do craque Eusébio, ídolo do futebol português, e ter levado o Benfica à conquista do bicampeonato do que é a atual Liga dos Campeões da UEFA (1960/1961 e 1961/1962). Antes disso, Bélla chegou a treinar em solo brasileiro, quando comandou o São Paulo em 1957, ganhando o título paulista daquela temporada. Também dirigiu clubes de expressão como Porto e Milan, sendo campeão em ambos.

O húngaro tinha uma particularidade como treinador, o que ficou conhecido como “regra Bélla Guttmann”. Para ele, o terceiro ano de um técnico em um clube era fatal. Acreditava que, se um treinador permanecesse por este período ou mais dirigindo um time, a relação com jogadores começava a se desgastar, e os adversários tiravam proveito e passavam a descobrir pontos fracos e por onde atacar.

Guttmann encerrou a carreira no longínquo ano de 1973, porém, sabemos que “longevidade” não é uma palavra que consta muito no vocabulário do futebol brasileiro quando se fala na permanência de treinadores no cargo. Para exemplificar, somente no Campeonato Brasileiro Série A 2018 foram 34 mudanças de técnicos ao longo de 38 rodadas, ou seja, quase um demitido por rodada. Portanto, o planejamento de alguns clubes sequer se aproxima de testar a veracidade ou praticidade da regra.

Mas dois treinadores querem contrariar Bélla Gutmann nesta temporada: Mano Menezes e Renato Gaúcho. Dos 20 clubes da elite nacional, Mano, Renato e Odair Hellmann foram os únicos a iniciarem e terminarem 2018 nos respectivos cargos, e ainda remanescentes para este ano. Vencedores, Renato e Mano tem em 2019 o desafio de continuarem a fazer Cruzeiro e Grêmio competitivos. Odair, em sua segunda temporada como treinador, busca o primeiro título.

Porém, o trabalho de um técnico começa muito antes do apito inicial de uma partida. O que se fez no passado sempre traz recordações positivas, e pensar que a mesma “receita” que trouxe conquistas recentes quando fielmente repetida já garante títulos futuros pode ser uma contradição dentro do pensamento de um treinador.

Buscar novas evidências se faz necessário em um esporte onde a lógica não prevalece e a imprevisibilidade é constante. Cabe ao comandante, nos aspectos que acercam ao jogo, trazer novas referências claras aos atletas para as melhores tomadas de decisão possíveis dentro de campo. Além do aspecto técnico/tático, também requer do técnico o poder de persuasão para que tais referências e comportamentos sejam cumpridos pelos comandados. Uma tarefa e tanto quando se imagina em convencer 30 ou mais pensamentos e ideais diferentes. Já dizia Johan Cruyff: “Jogas futebol com a cabeça, as pernas estão lá para te ajudar”.

E pelo visto no primeiro clássico Cruzeiro x Atlético em 2019, Mano Menezes segue com seu poder de convencimento dentro do vestiário.

Cruzeiro e seu padrão de comportamento.

Recém iniciada a temporada, Cruzeiro e Atlético protagonizaram o duelo válido pela 3ª rodada do Mineiro 2019 no último domingo. Vinte e quatro dias após se reapresentarem, e também pelo horário da partida (11hs), era improvável que teríamos um jogo com maior intensidade, transições rápidas e alguma estratégia de maior pressão após perda de bola de alguma das duas equipes. É o que comprova os dados do Instat: durante os 90min o Cruzeiro contra atacou 12 vezes, tendo finalizado em apenas 1. Já o Atlético teve 9 contra-ataques, finalizando em 2 oportunidades.

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Ambos os times buscaram se organizar nos ataques posicionais (quando um time tenta o gol com o adversário já organizado defensivamente). Tanto que as duas penalidades aconteceram em ataques desta forma. Apesar de ser início de ano, vale ressaltar o comportamento defensivo demonstrado pelo Cruzeiro durante a partida, algo já incutido por Mano Menezes aos jogadores. Novamente a solidez sem a posse de bola foi visível. Destaque para as ações de Henrique e Lucas Silva, que conseguiram fechar as linhas de passe e impedir a progressão do Atlético em direção do gol de Fábio.

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De 14 passes para a grande área tentados, o Atlético teve sucesso em apenas 4. O Cruzeiro acertou 12 em 25 tentativas no mesmo fundamento. Tal eficiência defensiva obrigou Cazares a ter um comportamento durante o jogo praticamente oposto ao camisa 10 do Cruzeiro. Sem conseguir receber a bola dos volantes (Adilson ou Elias) no espaço entrelinhas do time celeste, e desta forma estar mais próximo de Ricardo Oliveira, Luan ou Chara para progredir no campo ou uma assistência, restou ao equatoriano recuar para tentar organizar os ataques atleticanos.

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Já o Cruzeiro, com Henrique e Lucas Silva revezando na zona de construção das jogadas (os dois volantes do Cruzeiro distribuíram juntos 63 passes ofensivos ao longo do jogo, Adilson e Elias somaram 50) possibilitaram Thiago Neves jogar às costas dos dois volantes atleticanos. Espaço este que pode ser considerado um dos equívocos defensivos atleticanos no jogo.

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No mais, um jogo moroso pelos aspectos climáticos e a precocidade em que foi disputado. Observar as ideais de cada técnico era o principal ponto neste primeiro jogo. Atlético e Cruzeiro tem o mesmo número de competições a disputar em 2019. Levir ainda busca dar uma identidade ao time, enquanto Mano Menezes deu mais um sinal de que pode contrariar a “regra Bélla Guttmann”.

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