JORDAN HENDERSON: A REDENÇÃO DE UM CAPITÃO

Por António Duarte

As imagens de Jordan Henderson após a final da Liga dos Campeões 2019 comoveram o mundo do futebol. O capitão dos reds, visivelmente emocionado depois da conquista do troféu, abraçou fortemente seu pai, que sofrera de problemas de saúde durante a temporada e não pôde acompanhar a caminhada do filho de perto. Temporada essa de grande nível do ‘’herdeiro de Gerrard’’ que resultou no inglês levantando a taça em Madrid.

Recuando a Agosto de 2018, pairava no ar uma certa dúvida acerca da regularidade de Henderson no 11 do Liverpool – cujo a contratação de Fabinho viria exacerbar ainda mais o dilema. Isto é, embora Jürgen Klopp necessite de rodar os meio-campistas por questões físicas do seu modelo de jogo, Henderson não era visto (popularmente) como um pilar indispensável da equipe. O skipper começou a temporada mais tarde devido à participação na Copa do Mundo pela Inglaterra (que ficou entre as últimas 4 seleções do torneio). Durante esse tempo, Georginio Wijnaldum começou como volante dada a sua versatilidade, já que Fabinho precisou de um trabalho específico para se adaptar ao ritmo intenso do futebol inglês e entendimento do processo defensivo do Liverpool.

Em Outubro do mesmo ano, Henderson contraiu uma pequena lesão que o afastou dos gramados durante quase 3 semanas. No seu regresso, o Liverpool já atuava no 4-2-3-1 como forma de acomodar os seus 4 jogadores mais criativos (Mané, Salah, Firmino e Shaqiri). Dentro deste sistema tático é possível conter dois volantes no papel. Papéis esses entregues a Wijnaldum e Henderson, visto que Fabinho continuava a não dar as repostas regulares de alto nível.

 

Jordan Henderson abraçando seu pai, Brian Henderson.

Jordan Henderson abraçando seu pai, Brian Henderson.

 

Agora estamos em Dezembro e Fabinho já começara a ter sinais muito positivos com e sem bola, se destacando pela imposição física aliada ao alto poder de recuperação e antecipação e na forma como invertia os lados do jogo. Posto isto, podia então ser um complemento com Jordan Henderson no duplo-pivot, tendo o capitão um estilo de melhor retenção e gestão da posse, passe curto (embora também tenha capacidade para o longo e mudança do centro de jogo), leitura das jogadas para ganhar sobras e antecipar lances.

Contudo, este desenho tático do 4-2-3-1 apresentava um grave problema na transição defensiva do time e, a espaços, até na consequência de como o bloco respondia no ganho da posse de bola. Um dos motivos dos quais Klopp gosta bastante de atuar em 4-3-3 está ligado à possibilidade da sua equipa poder contra-atacar sempre com 3 jogadores pelo posicionamento adiantado do trio infernal. Ora, com Xherdan Shaqiri e Sadio Mané recompondo as respetivas alas, as saídas rápidas já tinham maiores condicionamentos: primeiramente pelo posicionamento natural de ter que defender um corredor menos protegido do que se o fizesse com 3 meias; segundo pelo desgaste físico de subir e descer constantemente; e por último devido às características de Shaqiri, que não faz transições longas por ser um jogador mais ‘’pesado’’. Às tantas, a ânsia para atingir o gol era tanta que, aquando a perda da bola, se o adversário conseguisse tirar a bola da primeira zona de pressão criada pelos da frente, o time ficava exposto e tendo que defender em 4+2.

No dilúvio de Klopp, Peter Krawietz, Pep Lijnders e os demais, o regresso ao sistema tático base precisava de ser feito. Todos os modelos de jogo têm que ter como premissa principal, o equilíbrio. No entanto, o 4-3-3 abriga somente um volante (no caso do Liverpool é mais adequado falar em meio-campista central) e o desempenho de Fabinho continuava a subir com o brasileiro ganhando cada vez mais preponderância nas dinâmicas da equipe. Por outro lado, além de Henderson ostentar o posto de capitão e todos os que frequentam o vestiário falarem num líder nato, tem também um peso tático na forma como os Anfielders executavam a sua proposta. Em organização ofensiva, por exemplo, Henderson quando comparado a Fabinho, oferece garantias de uma circulação mais segura e a equipe respira mais o seu jogo, sendo o brasileiro de mais choque e superioridade no ritmo alto.

Embora os meio-campistas do Liverpool tenham trabalhos similares no que toca a combatividade, coberturas e compensações, é diferente jogar mais centralizado e atuar mais por fora (interior). Quem joga no corredor central tem mais tarefas de cobertura e vigilância porque ocupa um espaço vital do campo. Já o interior (direito ou esquerdo) executa mais saídas de pressão ao portador, mais e maiores deslocamentos no campo, ou mais penetrações e rupturas em fase ofensiva porque entra como um ‘’apoiador’’ ao ataque.

Fabinho ganhou o lugar e Henderson começou alguns jogos como reserva utilizado. Pouco tempo depois, o capitão começou jogando como interior direito, assim como jogava com Brendan Rodgers em 2013/14. O Henderson de 2013 não era o mesmo destes dias. Pelo menos desde 2017 que se tinha fixado como um outro tipo de meia. Como dito anteriormente, centralizado, mais posicional, pesado sem tantos movimentos verticais com e sem bola, pois o corpo responde de forma diferente e o psicológico pensa o jogo de outra maneira. Para surpresa (ou não), o camisa 14 falou abertamente que tinha dito a Jürgen Klopp que estava disponível para jogar noutras funções. E, presumindo, o técnico alemão não foi de modos e resgatou a antiga essência de Henderson.

 

Percepção de Jordan Henderson percebendo o espaço vazio entre zagueiro e lateral adversário,

Percepção de Jordan Henderson percebendo o espaço vazio entre zagueiro e lateral adversário.

A resposta foi gradualmente positiva e Henderson disparou até ao final da temporada com exibições notáveis. Jogando mais perto da área podia fazer uso do seu poder de cruzamento. A presença dos homens da frente estava fortificada com o capitão pisando com tudo em zonas de finalização. Aos poucos foi se soltando e se destacando pelos movimentos de ruptura entre o zagueiro e o lateral adversário. Fá-lo como poucos, pois percebe exatamente o momento em que é possível infiltrar naquele buraco.

Movimento tal ‘’mezz’ala’’ que é indefensável, pois obriga o zagueiro a tomar uma decisão prejudicial: ou acompanha Henderson para a bola não entrar nas costas da defesa e assim é obrigado a sair da posição e não ser um elemento de cobertura ao lateral; ou permite a bola entrar e Henderson cruza livremente. Independentemente de tudo, todas as ações têm uma reação.

 

 

Jordan Henderson se movimenta nas costas do lateral e arrasta consigo o marcador.

Jordan Henderson se movimenta nas costas do lateral e arrasta consigo o marcador.

Tendo menos uma cobertura, o lateral se encontra desprotegido e a visão para o gol está clara. Salah disfere um portentoso chute para o 2x0.

Sem cobertura, o lateral se encontra desprotegido e se abre uma janela para finalização. Salah disfere um portentoso chute e marca o segundo gol do jogo após influência não-direta de Henderson.

 

Mais importante de tudo, mesmo que Henderson estivesse desempenhando coisas diferentes do que fazia como 1º homem de construção (agora é mesmo o 3º homem), poder contar com Fabinho e Henderson no meio-campo a 3 solidificou imenso o bloco dos reds e trouxe maior liberdade ao trio atacante. Jordan Henderson não tem o deslocamento dos restantes interiores do elenco e isso é um problema quando falha os timings do pressing, mas compensa na leitura e antecipação dos mesmos.

Perante todos os desafios que a temporada e a vida pessoal lhe deu, ”Hendo” deu uma reposta à altura da sua força mental e o final desta história termina vitoriosa, em que o troféu da Liga dos Campeões é o menos importante para o sucesso de alguém. A redenção de Jordan Henderson, o Skipper.

 

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