GUIA DAS QUARTAS DE FINAL DA LIBERTADORES 2019

Por Dimitri Barcellos, Gabriel Corrêa, Henrique Letti, Leonardo MirandaMichelle Silva e Rodrigo Coutinho

Conquistar um título continental é o ápice de um projeto seja na América do Sul, Europa, Ásia ou qualquer outro continente onde uma bola esteja rolando. São 13 jogos – algumas vezes 19 – que separam equipes de chegar ao Mundial de Clubes. Além da técnica, equipes sendo testadas mentalmente em jogos de tensão, estádios lotados e torcedores ansiando pela conquista de um título.

Nesta semana, começam os jogos de quartas-de-final da Copa Libertadores da América. São oito projetos sobreviventes. Boca Juniors, Cerro Porteño, Flamengo, Grêmio, Internacional, LDU, Palmeiras e River Plate estão a cinco jogos da Copa que “se mira y no se toca”. 

A equipe do Footure se reuniu para analisar quais estilos, como atacam e como defendem as equipes de Gustavo Alfaro, Miguel Ángel Russo, Jorge Jesus, Renato Portaluppi, Odair Hellmann, Pablo Repetto, Felipão e Marcelo Gallardo.

 

O River Plate venceu o Boca Juniors na final da Libertadores de 2018 e é o atual campeão.

O River Plate venceu o Boca Juniors na final da Libertadores de 2018 e é o atual campeão.

 

Estilos e ideias diferentes espalhadas pelos treinadores – três brasileiros, três argentinos, um uruguaio e um português – que vamos conhecer nas próximas linhas do “Guia do Footure – Libertadores 2019”. Afinal, futeboleiros e futeboleiras, o caminho para Santiago é logo ali.


 

PALMEIRAS x GRÊMIO

DATAS: 20/08 (Arena do Grêmio) e 27/08 (Allianz Parque)

 

A FORÇA FÍSICA E OS CONTRAGOLPES DO PALMEIRAS DE FELIPÃO

O Palmeiras é um time de muita intensidade. Ataques direto, marcação muito atenta e muita força quando recupera a bola e sai para o jogo. Mesmo caindo um pouco fisicamente na volta da Copa América, a equipe de Luiz Felipe Scolari é competitiva e vende caro o empate ou a derrota. Em 2019 foram apenas quatro derrotas – para Corinthians, San Lorenzo, Internacional e Ceará. É também um time muito estratégico, que coloca muita intensidade nos primeiros minutos, geralmente com passes muito verticais procurando o apoio dos laterais e o cruzamento rasteiro para a área. Depois do gol, o time recua, fecha espaços e sai rápido para o ataque.

 

O Palmeiras de Felipão.

O Palmeiras de Felipão.

 

Esse estilo privilegia alguns jogadores-chave no time, como Dudu, Deyverson e Bruno Henrique. O primeiro é a referência técnica e vem jogando mais centralizado na linha de meias. Ele flutua bastante, se move para armar as jogadas, mas é quando recebe de frente e acelera que rende muito bem. Já Deyverson é um atacante que se tecnicamente não brilha, é extremamente móvel e participativo. O Palmeiras cria muito quando ele abre por um dos lados e faz o cruzamento. Já Bruno Henrique é o “motor” do time sem a bola, comandando a subida de pressão e roubando muitas bolas.

Para vencer o Palmeiras, é bom estar atento às subidas de pressão do Bruno e para a mobilidade do Deyverson. A ideia é ele arrastar zagueiros para a entrada em facão dos atacantes. E é justamente o que Kannemann faz no Grêmio. Geromel vai ter que se redobrar na cobertura dessas entradas. Outro ponto é explorar os encaixes na defesa e fazer o gol rápido, porque o time tende a ter problemas quando precisa propor o jogo, jogar com mais cadência.

 

EM BUSCA DO VELHO GRÊMIO DOS MATA-MATAS

O 2019 do Grêmio tem sido de altos e baixos. O domínio absoluto no Gauchão, seja com a equipe reserva ou com a titular, foi posto à prova e tem balançado no Campeonato Brasileiro. Ainda que tenha demonstrado grandes méritos, o time apresenta pontos a serem corrigidos. O desempenho em mata-matas, entretanto, tem sido suficiente. Com o Palmeiras pela frente, o desafio é ainda maior.

 

O Grêmio de Renato Portaluppi.

O Grêmio de Renato Portaluppi.

 

O Tricolor sofreu poucas variações em sua forma de atuar nos últimos anos. A preferência de Renato Portaluppi sempre foi o 4-2-3-1, cujas variações se dão nas características dos jogadores. O meia atrás do atacante, por exemplo, já foi Douglas, Luan e, hoje, é Jean Pyerre. Três jogadores com características diferentes, que entregam diferentes potencialidades à equipe. Atualmente, o “10” titular tem sido o último, e suas qualidades são fundamentais para o time.

Jean Pyerre é um organizador. Não só por seus passes no espaço, mas também por sua movimentação. Por vezes, o camisa 21 troca com Maicon, e participa da criação ao lado de Matheus Henrique, outro destaque do time. Assim, Maicon fica mais próximo da área, onde cria perigo com toques rápidos e encontra com facilidade os laterais na profundidade. Os três meio-campistas trabalham em sintonia, de maneira que sempre dois deles estejam lado a lado na base da jogada, facilitando a utilização de atletas à frente como os terceiros homens, que recebem o passe entrelinhas.

Os laterais, por sua vez, são peças chaves para as situações de ataque posicional do Grêmio. Quase sempre, ambos espetam simultaneamente, o que cria vantagens numéricas nos lados. Ainda que seja brutal em situações de um contra um, as movimentações por dentro de Everton ‘Cebolinha’ abrem o flanco para Cortez. Do outro lado, não é raro ver Leo Gomes aparecendo como um interior, deixando o lado para Alisson, que gosta de atacar a segunda trave em caso de cruzamento do lado oposto.

Contra o Palmeiras, uma das grandes decisões de Renato está na escalação de Diego Tardelli e/ou Luan na equipe titular. São jogadores que podem agregar muita qualidade ao ataque, com movimentações inteligentes e buscas incessantes por zonas de arremate. Eles podem ser o que falta para o Grêmio voltar a ser agressivo com a bola, principalmente em ataques diretos, já que o time tem sido mais passivo e menos cirúrgico do que o normal.

 

As aproximações de Maicon, Matheus Henrique e Jean Pyerre.

As aproximações de Maicon, Matheus Henrique e Jean Pyerre.

 

 

Por ser uma equipe madura, o Grêmio apresenta padrões em todas as fases do jogo. Durante a transição ofensiva, por exemplo, é possível observar a noção de desmarques que atletas como Everton e Alisson possuem, bem como a capacidade do passe longo de meio-campistas. A transição defensiva também pesa, e quase sempre permite que o time sequer forme duas linhas de quatro para defender. Isso só é possível porque a dupla de defesa compreende muito bem as ações necessárias quando a bola está ou coberta ou descoberta.

No caso de bola coberta, quando o adversário com a posse está sendo pressionado, tanto Geromel quanto Kannemann conseguem ler bem a jogada e interceptar passes com antecipações. Isso permite ataques diretos em momentos que a defesa adversária não está bem postada. Quando o adversário tem espaço para pensar, passar e, principalmente, lançar, defender as costas não é um problema para a dupla de zaga do Grêmio, que apresenta um ótimo senso de cobertura.

Quando a ideia é proteger a área, o Grêmio costuma se posicionar em um 4-4-2. O 4-1-4-1 aparece em situações de bloco médio/alto, com Matheus Henrique se posicionando à frente da defesa e Maicon mais próximo dos atacantes – principalmente porque o capitão não apresenta condições físicas para voltar até a segunda linha de marcação durante o jogo todo.

É necessário destacar, entretanto, que a equipe marca com encaixes individuais por setor, com perseguições não tão curtas. Ainda que a pressão na saída de bola adversária seja condicionada – e funcione bem – por conta dessa configuração, certas movimentações do adversário podem deixar furos na defesa, principalmente quando acontecem falhas na comunicação e falta de concentração nos defensores do Tricolor.

A bola parada defensiva do Grêmio também apresenta encaixes individuais. Em escanteios, com uma marcação predominantemente individual (são somente dois jogadores em zona, protegendo a primeira trave), compensar erros é uma tarefa mais difícil. Dos 22 gols sofridos pela equipe no ano, metade foi a partir de bolas paradas, o que demonstra uma brecha que pode ser bem aproveitada pelo Palmeiras.

No geral, o time do Grêmio é coletivamente sólido, e possui peças que podem desequilibrar o jogo. Se a concentração estiver no páreo de outros cenários de mata-mata, a equipe pode dominar naturalmente as duas partidas nas quartas de final da Libertadores.


 

BOCA JUNIORS x LDU

DATAS: 21/08 (Casa Blanca) e 28/08 (Bombonera)

 

EM BUSCA DA REDENÇÃO PÓS-2018

Desde o começo de 2019, o Boca Juniors vem sendo comandado pelo técnico Gustavo Alfaro. Depois de bons trabalhos com o Gimnasia e o Huracán nos últimos anos, recebeu oportunidade na Bombonera após a saída de Guillermo Barros Schelotto. Ele se notabilizou ao longo de sua carreira por construir equipes objetivas ofensivamente e bastante combativas sem a bola. Ter a posse de bola não é nenhuma prioridade, embora saiba fazer suas equipes executarem um bom trabalho com ela quando exigido. Seu esquema tático preferido é o 4-4-2, embora algumas vezes opte por armar sua equipe utilizando o 4-2-3-1. Quando estava no Huracán, fazia esta variação de acordo com a característica do time adversário. Se era um rival mais propositivo, armava duas linhas de quatro. Se o lado oposto apostava em um jogo mais defensivo, concebia o meio-campo com três jogadores mais avançados para ocupar espaços. No Boca, tentou o 4-2-3-1 nos primeiros meses, mas o 4-4-2 deu melhor resposta diante do perfil do elenco.

 

Alfaro não costuma manter um XI, mas este é um provável Boca Juniors.

Alfaro não costuma manter um XI, mas este é um provável Boca Juniors.

 

No 4-4-2 xeneize, os extremas da linha de meio possuem papel fundamental nos momentos ofensivos da equipe. Em situações mais posicionais, os jogadores de beirada costumam aparecer por dentro para trabalhar a bola próximo ao corredor central, abrindo espaço para os laterais chegarem em campo de ataque e aparecerem na linha de fundo. Para isso, é comum ver jogadores como Bebelo Reynoso, Alexis Mac Allister e agora Eduardo Sálvio, com características de armação, atuarem abertos por um dos lados. Para balancear, o lado oposto costuma contar com peças de maior atributo físico, seja com mais velocidade ou mais força, a fim de ter alguém capaz de brigar por bolas mais próximas à área rival. O colombiano Villa e o uruguaio Nández (até sua venda para o Cagliari) são os atletas que mais figuram neste papel. Agora sem Benedetto, Ábila Hurtado compartilharão a referência no ataque azul y oro, sendo os jogadores mais terminais da dupla de frente. Ao lado deles, Tévez ou Zárate surgem como atacantes de maior mobilidade, se soltando mais para buscar a bola na intermediária e flutuar para oferecer opção de passe. Entretanto, deve-se chamar atenção ainda mais para as jogadas em transição do Boca Juniors. Com excelentes lançadores em campo mais recuado, como o zagueiro Junior Alonso e os volantes Marcone e Campuzano, Alfaro tira bastante proveito desta qualidade para acionar as ultrapassagens dos laterais, além de explorar muito a movimentação dos atacantes às costas da zaga adversária em ocasiões onde a bola é recuperada em terreno mais avançado para conectar a transição e agredir com velocidade.

Quem fez sua estreia e irá agregar o meio-campo foi Daniele De Rossi. O italiano pode atuar sendo o homem da saída com seus lançamentos e grande capacidade associativa ou então se adiantar alguns metros e atuar como um box-to-box. É pouco tempo, mas já demonstrou suas principais virtudes.

 

A chegada de De Rossi fez o mundo voltar seus olhos para Bombonera.

A chegada de De Rossi fez o mundo voltar seus olhos para Bombonera.

 

Ao jogar no 4-4-2, a composição defensiva argentina é a mesma da plataforma tática em que o jogo do time se baseia. Alfaro organiza duas linhas de quatro jogadores bem compactas, variando bastante a altura do campo onde elas se posicionam. A marcação xeneize se dá através de encaixes por setor, buscando sempre que possível pressionar intensamente o portador da bola, principalmente com os dois jogadores centrais da linha de meio. Os dois atacantes não são tão combativos nem buscam executar os desarmes, mas são fundamentais ao orientar a subida de pressão da equipe. Assim, tentam encurtar os espaços e diminuir o tempo de ação da primeira linha adversária na saída de bola, deixando o trabalho mais sujo para quem vem logo atrás no suporte fazer a recuperação da posse. Um ponto fraco a ser destacado na fase defensiva do Boca Juniors é o espaço que fica por vezes na entrada da sua própria área. Em algumas situações, após avançar para pressionar mais adiante, os dois volantes demoram a recompor e fechar a linha de meio, cedendo campo para que suas costas sejam amplamente exploradas e, quase como um efeito dominó, obriga os dois zagueiros a deixarem seus postos para cobri-los, desmontando consequentemente a principal proteção do time.

 

A FORÇA DAS LATERAIS EQUATORIANAS

Dos quadrifinalistas de 2019, a LDU é quem ostenta um dos trabalhos mais longos com um treinador. Desde julho de 2017, o uruguaio Pablo Repetto é o comandante dos albos. Com o cartaz de ter levado outro equatoriano a uma final de Libertadores em 2016, o Independiente Del Valle, o técnico de 45 anos tenta novamente atingir essa façanha em sua carreira. Geralmente, costuma utilizar o 4-2-3-1 como plataforma tática base de seus times, mas adota também variações para o 4-4-2 como já mostrou várias vezes diante da LDU. Seus times costumam se basear em um jogo de muita velocidade na parte ofensiva, com saída rápida pelos lados e transições velozes para tentar levar vantagem sobre a defesa adversária, se baseando em lançamentos. O fator altitude dentro de casa também influi nisto. O trabalho com bola não possui grande refinamento, buscando manter mais tempo de posse somente em campo defensivo e apenas quando necessário. Nesta Libertadores, a amostra em relação a isso é bem clara, visto que a média de posse de bolas dos equatorianos é de 46%.

 

A provável LDU de Pablo Repetto.

A provável LDU de Pablo Repetto.

 

O jogo ofensivo da LDU se baseia demais na capacidade de seus extremas. Anderson Julio e José Ayoví são bastante acionados para desenvolver os lances ofensivos pelos dois corredores. Velozes e habilidosos, recebem a confiança do treinador para desequilibrarem sozinhos no um contra um, avançando rumo à área adversária individualmente e chamando a defesa para abrir espaços. Em situações de ataque que exigem maior construção e trabalho das jogadas, a mobilidade do meia-central e do atacante são fatores preponderantes para que a execução seja bem sucedida. Atuando no centro da linha de três do 4-2-3-1, Jhojan Julio (irmão de Anderson) possui liberdade para flutuar na intermediária ofensiva e ir de uma lateral a outra para gerar aproximação e estabelecer superioridade numérica pelas bandas, ajudando nas triangulações com os extremas e os laterais. Jhojan também tem plena capacidade de condução em velocidade, permitindo a ele ditar ter controle total das ações do time. Na frente, Rodrigo Aguirre atua como uma referência mais móvel, tendo autonomia total para deixar a área e procurar jogo perto do meio-campo em situações onde o time retém a posse. Ainda, com esse recuo, abre espaço para a infiltração dos extremas, possibilitando lançamentos mais centrados em direção a eles. Entretanto, com a LDU em campo ofensivo, guarda sua posição entre os defensores adversários para esperar bolas alçadas. Importante destacar o papel ofensivo dos laterais, o experiente Antonio Valencia e Christian Cruz. São orientados a subir ao ataque e buscar passes verticais, contando com uma retenção maior dos volantes para possibilitar esses avanços.

Os equatorianos optam por uma defesa de pressão moderada e bloco médio em um 4-4-2 estabelecido por Pablo Repetto em fase defensiva. Jhojan Julio e Rodrigo Aguirre estabelecem a primeira linha de combate, enquanto Ayovi e Anderson Julio fecham pelos lados. Com encaixes mais setorizados, a LDU sofre bastante na hora dos combates para tentar a recuperação da bola. A precisão na hora dos desarmes deixa a desejar, o que acaba provocando inúmeras faltas desnecessárias e até mesmo violentas. A descompactação das linhas também é um problema sério para os albos. Não é raro ver distâncias grandes entre o bloco de meio e o bloco defensivo, oferecendo um espaço entrelinhas enorme, algo que os times rivais costumam explorar. Essa descompactação acaba fazendo também com que os zagueiros deixem a sua linha e tentem dar botes altos no campo. Quando não conseguem a recuperação, desguarnecem a sua área e deixam a equipe bastante exposta. Porém, um dos grandes trunfos defensivos da LDU é a defesa dos corredores. Quando o adversário tenta descer o campo pelos lados, os equatorianos fecham com qualidade o setor da bola, congestionando o caminho e dificultando qualquer possibilidade de troca de passes, tabelas curtas ou mesmo viradas de jogo mais longas para o lado oposto. Não costumam recuperar tanto de imediato, mas forçam o erro do rival e aproveitam essas falhas para subir em velocidade, emendando contra-ataques.


 

INTER x FLAMENGO

DATAS: 21/08 (Maracanã) e 28/08 (Beira-Rio)

 

UM INTER QUE BUSCA COMPETIR AO EXTREMO SEMPRE

Se o Internacional chegou às Oitavas desta Libertadores, muito se deve ao fato de ter uma transição defensiva bem orquestrada, com “músicos de apoio” que sabem o que e quando fazer, em um sistema de coberturas bastante eficiente. Apesar de variar entre 4231 e 4141, em fase defensiva, a equipe adota uma marcação zonal num 4141, na qual cada jogador é responsável por um determinado espaço, mas pode sair da sua zona e avançar para pressionar o portador da bola, desde que outro jogador assuma a sua posição, a fim de sempre manter uma primeira linha com quatro jogadores posicionados aproximados, evitando infiltrações e negando espaços aos adversários. Dentro dessas situações, Lindoso realiza uma função extremamente importante. Na maioria das vezes posicionado a frente da zaga, o volante é quem ocupa o lugar de Victor Cuesta quando ele sobe para pressionar na segunda linha, mantendo assim o equilíbrio defensivo do time.

 

Odair Hellmann tem mantido uma escalação nos grandes jogos.

Odair Hellmann tem mantido uma escalação nos grandes jogos.

 

Não há como falar do Inter de Odair Hellmann sem mencionar a pressão pós-perda que também o levou tão longe na competição. Buscando retomar a posse o quanto antes, mais perto da área adversária do que da sua, os jogadores próximos da zona do portador da bola pressionam esse e suas opções de passe. Nesta execução, Cuesta conta com diferenciais para realizar um papel singular. Muito técnico, ele tem como ponto forte suas antecipações, quase sempre limpo nas suas intervenções, pressupõe os comportamentos do oponente, retomando a posse e dispondo de qualidade para sair jogando.

Na fase ofensiva, o Internacional alarga o campo com seus laterais, utiliza das características de Edenilson e Patrick, da qualidade dos primeiros passes de Lindoso e Cuesta e da dinâmica que os passes do ídolo e craque colorado Andrés D’Alessandro proporcionam. Jogador essencial para a execução das ideias de Hellmann, Patrick busca com frequência a linha de fundo para tentar cruzamentos que tem como principal destino os pés de Paolo Guerrero. Mais do que isso, o camisa 5 também tem papel importante ocupando espaços, seja puxando a marcação adversária, seja se oferecendo como apoio defensivo na intermediária para as subidas de Uendel. Forte mental e fisicamente, Edenilson é outro jogador fundamental, que, além de fechar espaços, busca a infiltração e se coloca como opção na intermediária, enquanto Bruno ou Zeca buscam o fundo. Com a dupla de volantes mais avançados e um instinto forte para retomar a posse a bola no seu campo de ataque, Inter faz da pressão pós-perda uma forte aliada.

Ademais, o Colorado conta também com um dos melhores centroavantes do Brasil. Além de marcar seus gols, Guerrero trabalha constantemente para potencializar seu entorno, através das suas movimentações e do seu pivô de qualidade, retendo a bola por uma quantidade significativa de tempo até a aproximação dos companheiros.

Com a lesão de Rodrigo Dourado, o Internacional passou a contar com outro “Rodrigo”: Lindoso. Parte relevante de uma versão colorada mais versátil no ataque, que não somente sabe reagir, mas também propor, o atual titular da posição busca se alinhar entre os laterais e os zagueiros, formando triângulos tanto pelo lado direito, com MoledoZeca/Bruno, quanto esquerdo, com CuestaUendel. Isto é, além de colaborar para a solidez defensiva, Lindoso é uma solução que antes o elenco não possuía para esses primeiros passes.

 

Odair Hellmann é o segundo técnico mais longevo do país.

Odair Hellmann é o segundo técnico mais longevo do país.

 

Com mais de 100 jogos no comando do Inter, Odair Hellmann reforça a importância do grupo em todas as suas entrevistas e tem como seus 12º e 13º jogadores: Rafael Sóbis e Gustavo Nonato. O primeiro, ídolo do clube e líder de assistências na temporada, geralmente entra durante a partida para ser uma alternativa a mais de tabela na frente, fora da área, recebendo a bola de costas para a defesa adversária, mas também gerando possíveis lances de gol por meio das bolas paradas e chutes de média distância. Nonato, por outro lado, surge como escolha para o meio campo. Dono de muito fôlego para correr e pressionar, o jovem de 21 anos é muito eficiente fechando os espaços, abrindo as pernas como um compasso a frente dos oponentes. Além disso, ele demonstra também qualidade com a bola nos pés, contribuindo para a manutenção da posse.

Nesta próxima fase, o Inter tem como principais desafios internos vencer as lesões preocupantes de Lindoso e Edenilson e melhorar o aproveitamento das chances criadas no ataque, algo que está diretamente ligado a uma melhora no desempenho do uruguaio Nico López. Entre as incógnitas, se mantém uma certeza: a de grandes confrontos pela frente.

 

UMA LIBERTADORES COM SOTAQUE PORTUGUÊS

Depois de nove anos o Flamengo volta a disputar as quartas de final de Copa Libertadores. Como esperado, pelo pouco tempo de trabalho, as ideias de Jorge Jesus, técnico rubro-negro, ainda não estão totalmente assimiladas pelos jogadores. Em função disso, o time oscila, o que, mesmo com o ótimo elenco que possui, não o coloca na condição de favoritismo contra o Internacional. Depois da Copa América o rubro-negro teve ótimos momentos e outros que deixaram incerteza na torcida.

Além das transformações bem visíveis no modelo de jogo da equipe, há a transformação da metodologia de treinamento com a nova comissão técnica. Não se sabe se exatamente por isso, mas a parte física do time se transformou numa incógnita. Lesões musculares em jogadores importantes vieram, assim como uma alternância de ritmo incomum dentro de algumas partidas. Superar essas ‘’intempéries’’ é primordial para chegar à semifinal.

 

O Flamengo tem sido escalado num 4-1-3-2 por Jorge Jesus.

O Flamengo tem sido escalado num 4-1-3-2 por Jorge Jesus.

 

A base que Jorge Jesus busca implementar é norteada por agressividade e intensidade a todo momento. O Flamengo não abre mão da posse de bola, e ataca de forma bem organizada para criar. O esquema tático tem variado entre o 4-4-2 e o 4-1-3-2, mas a ocupação de espaços do time com a bola muda muito pouco. Ela consiste no primeiro volante sempre entre os zagueiros na saída de bola, formando uma primeira linha com três. Isso possibilita o avanço simultâneo dos laterais e a amplitude gerada por eles no campo de ataque. Os meias variam para o centro, formando aproximação e linhas de passe. E os atacantes revezem entre a flutuação na entrelinha e a profundidade.

A ideia final é provocar desequilíbrios na última linha adversária. Não é incomum o Flamengo colocar até quatro jogadores fazendo diagonais e trocas de posições no último terço do campo. Gabigol, Bruno Henrique e De Arrascaeta entenderam bem essa proposta e vêm se destacando. O camisa 9 volta bastante na ‘’base’’ da jogada para auxiliar na construção dos lances, e um dos meias infiltra para equilibrar. Os laterais são muito utilizados como fonte de circulação da bola também.

 

 

No momento defensivo reside os principais problemas da equipe. O Flamengo, desde que Jorge Jesus assumiu, levou gol em praticamente todos os jogos. O português dá de ombros para isso. Sempre diz que não há problemas em levar gols desde que a sua equipe faça mais. Fato é que o rubro-negro precisa evoluir naquilo que busca executar na maioria dos jogos: adiantar as linhas e sufocar a saída rival. Isso está diretamente ligado a imposição que quer ter sobre os adversários.

Esse mecanismo de adiantar o posicionamento da equipe para marcar requer mais agressividade na abordagem de quem está próximo da bola. Pressionar quem tem a responsabilidade do passe é primordial para evitar que a bola seja lançada e o espaço entre a última linha de defesa e o gol seja atacada. Isso tem faltado, assim como uma melhor coordenação e postura corporal dos defensores. Por vezes as ‘’bolas descobertas’’, aquelas que não há ninguém pressionando o atleta que fará o passe, não contam com a postura e o posicionamento correto dos defensores. O time já levou gols assim.


 

CERRO PORTEÑO x RIVER PLATE

DATAS: 22/08 (Monumental de Nuñez) e 29/08 (La Olla Azulgrana)

 

OS PARAGUAIOS EM BUSCA DO ATAQUE

Depois da primeira fase com Fernando Jubero na casamata, responsável pela boa campanha no Grupo E, o Cerro Porteño conta com Miguel Ángel Russo no comando. Campeão da Libertadores em 2007 com o Boca Juniors, Russo esteve diante do Alianza Lima na etapa de grupos da atual Libertadores, porém não atingiu a classificação com os peruanos. Uma das grandes virtudes do treinador argentino é saber adaptar a sua forma de jogar de acordo com o elenco que tem em mãos. Diante do Ciclón paraguaio, pouco mexeu no modo de atuar do time em comparação com o trabalho que vinha sendo feito por Jubero, executando um jogo oposto à proposta reativa que aplicava no Peru. O Cerro segue com o padrão de valorizar a posse partindo do 4-4-2, buscando se defender com a bola no pé, controlando o jogo a partir do meio-campo e buscando acelerar pelos lados. Ainda, o jogo aéreo exerce papel fundamental no rendimento da equipe, tendo jogadores de muita imposição pelo alto tanto na própria área quanto perto da meta rival.

 

O provável Cerro de Jubero.

O provável Cerro de Jubero.

 

O momento ofensivo do Cerro Porteño, dentro deste perfil propositivo aplicado pela equipe, começa com uma saída de jogo mais sustentada. Os dois zagueiros são os responsáveis por dar a largada na construção, distribuindo para uma linha de quatro jogadores mais à frente formatada através da subida dos dois laterais ao lado dos dois meias-centrais (geralmente Aguilar e Villasanti). Logo que a bola chega a este setor intermediário, os movimentos para possibilitar as triangulações pelos lados começam a acontecer. Os dois jogadores mais abertos da segunda linha do 4-4-2 (contra o San Lorenzo foram Colmán e Carrizo) buscam centralizar seu posicionamento, abrindo espaço para a presença dos laterais. Junto a eles, os meias-centrais aproximam pelos lados para oferecer apoio e fazer a leitura de como desenvolver as jogadas. Com essa ocupação mais forte de um dos lados do campo, uma saída bastante utilizada é a virada de jogo para o “lado fraco”, sempre procurando o lateral oposto livre às costas da defesa. Importante destacar o papel da dupla de ataque Joaquín Larrivey e Nelson Haedo Valdez. Experientes e bem entrosados, alternam bastante as saídas da área para ajudar na construção e o posicionamento na referência. E a qualidade de ambos pelo alto faz com que esse trabalho pelos lados seja aproveitado, com muitas bolas chegando até a linha de fundo e sendo cruzadas em direção a eles. Em situações de aperto, seus companheiros também não hesitam em disparar lançamentos mais longos rumo ao ataque, diante da imposição aérea e do bom pivô que são capazes de fazer.

Executando uma clara marcação por encaixes, o Cerro Porteño não preza por uma organização fixa de linhas em fase defensiva. Entretanto, quando marca mais baixo no campo, com o adversário ocupando espaços em terreno ofensivo, a equipe paraguaia se fecha em duas linhas de quatro com os dois atacantes sem grandes atribuições para dar combate ou pressionar, esperando as ligações para os contra-ataques. Um conceito muito bem executado pelo time do Barrio Obrero é a pressão pós-perda da posse. Assim que o rival consegue tomar a bola, os jogadores mais adiantados encurtam os espaços e tentam forçar passes quebrados ou lançamentos para evitar perdas em zonas perigosas. Caso a equipe não obtenha a recuperação após alguns segundos, os jogadores se posicionam buscando seus encaixes e organizam a fase defensiva. O ponto fraco da defesa azulgrana fica por conta da falta de velocidade na hora de tentar perseguir as transições a partir de conduções dos adversários. Villasanti e Aguilar não são exatamente meias de bom arranque, o que se agrava ainda mais com uma dupla de zaga formada por Fernando Amorebieta (34 anos) e Marcos Cáceres (33 anos), ambos já longe de seu auge físico. Contra jogadores de maior poder de arrancada e capazes de desequilibrar com dribles em campo aberto, a tendência é de que o sistema defensivo sofra um pouco em ocasiões como estas.

 

UM RIVER QUE CADA VEZ MAIS SE MOLDA AO ADVERSÁRIO

O River Plate disputa a Libertadores da América como atual campeão da competição. Uma equipe que pouco mudou da sua conquista no Santiago Bernabéu contra o maior rival Boca Juniors. Podemos dizer que a principal arma da equipe está no reservado: Marcelo Gallardo. O ídolo do clube como jogador está há cinco anos no comando técnico e já conquistou duas Libertadores, Recopa Sul-Americana, Copa Sul-Americana e Superliga Argentina.

Apesar de ser um técnico que se molda muito ao adversário, esse deve ser o provável River de Gallardo.

Apesar de ser um técnico que se molda muito ao adversário, esse deve ser o provável River de Gallardo.

 

Nas últimas rodadas seja da Superliga Argentina ou Libertadores da América, o Gallardo tem priorizado atuar numa espécie de 4-2-2-2 à brasileira. A saída de bola é sempre com os dois zagueiros. Martínez Quarta busca os lançamentos longos e não tem medo de arriscar. A dupla de volantes, geralmente Enzo Pérez Exequiel Palacios, ajuda muito na saída. Enquanto o último carrega mais a bola para os homens da frente, enquanto o camisa 24 recua. Desta forma, os laterais Montiel Milton Casco buscam sempre dar mais profundidade pelos lados e pouco ajudam na sustentação da saída de bola.

Mais a frente, Nico De La Cruz inverte muito de lado com Ignacio Fernández. O primeiro acelera as jogadas e busca muito jogo por dentro, enquanto Ignacio busca sustentar e ajudar no balanço defensivo para o próprio Montiel poder buscar as laterais. O camisa 11, por sinal, foi quem mais aproveitou a saída de Pity Martínez e tomou conta da posição.

No ataque, Gallardo prefere sempre uma dupla. Enquanto um dá profundidade o seu parceiro é quem mais se movimenta. Suárez dá sustentação na frente, enquanto Borré é quem mais se movimenta e busca os desmarques em velocidade.

Na fase defensiva, a pressão pós-perda é o princípio básico na equipe de Gallardo. O trabalho começa pelos seus atacantes, principalmente Matias Suárez, que tem média de 1.5 recuperações por jogo. Por outro lado, a vontade de recuperar a bola logo após a perda, se desordenada, gera diversos espaços nas costas seja dos laterais ou então para deixar no 1×1 contra o defensor. Por isso, Pérez Palacios são fundamentais nas coberturas dos alas Montiel Casco – o que também pode gerar espaços na entrada da área.

Caso a equipe não recupere a bola logo após a perda, os jogadores se organizam num 4-4-2. De qualquer forma, o portador da bola nunca está confortável com ela pela pressão seja de um dos atacantes ou então dos volantes/meias. Algo que os adversários buscam se aproveitar muito é a bola pelo alto. Martínez Quarta (1,83m) e Rojas (1,80m) não são muito altos. Com a lesão de Pinola, os adversários tem buscado muito este tipo de jogada.

A certeza é que poderemos ver surpresas nas escalações de Gallardo para os duelos. Um treinador que não foge dos princípios de seu jogo, mas se molda aos erros dos adversários e utiliza do extremo estas armas contra eles.

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