FRENKIE DE JONG: O JOGADOR-TOTAL

Por André Andrade

Uma das maiores promessas da nova geração holandesa, Frenkie de Jong foi vendido pelo Ajax na janela de janeiro e chegará ao Barcelona em julho de 2019, o valor da transação foi de 75 milhões de euros pelo jovem meia de 21 anos. Mas o que de Jong tem de tão especial, que faz um dos maiores clubes do mundo gastar tamanho montante de dinheiro em sua compra e como pode se encaixar no Camp Nou? E o que de Jong tem de relação com a minha visão do futuro do futebol?

O JOGADOR-TOTAL FRENKIE DE JONG:

O jovem holandês vem atuando nas últimas temporadas pelo Ajax, um clube que tem uma maneira peculiar de entender e praticar o jogo, que inclusive compartilha raízes com o Barcelona, por Cruyff e outros personagens ao longo da história e isso com certeza é uma chave para o desenvolvimento do jogador no cenário europeu e pode facilitar muito sua transição ao Camp Nou.

Polivalente
O jogador tem uma incrível facilidade de adaptação a diferentes posições em campo, é completo em muitas características do jogo. Em um 4–3–3, de Jong costumar atuar como “interior”, “8”, “meio-campista”, pode atuar ainda como “pivote”, “6”, volante(posição que hoje ocupa Busquets), ou ainda como zagueiro.

Ações com bola
Frenkie tem uma qualidade absurda no perfilamento corporal ou “orientação corporal”, ou seja, em como se posiciona por exemplo, para receber um passe e continuar a jogada, um dos aspectos básicos do futebol e subavalido. Um bom perfilamente corporal, ajuda o jogador a poder “escanear” o campo melhor, recolher mais informações de estímulos, principalmente visuais e tomar a melhor decisão para a situação. Além disso, de Jong também realiza muito a ação de girar o pescoço para observar a área ao seu redor antes de receber a bola, e assim já sabe o que fará com ela quando chegar em seus pés o que facilita suas ações, aliadas ao domínio técnico do passe em seus mais variados tipos, com a parte de dentro do pé, de fora, de chapa…e nas três distâncias: curtos, médios e longos.

Duas das qualidades que fazem o jogador se destacar são: Condução com a bola e dribles. O jogador busca estar sempre envolvido com o jogo e se sente confortável sob pressão, dessa forma, além de utilizar o corpo para realizar boas proteções da bola, consegue progredir no campo realizando dribles de corpo e mudando a direção da jogada, bem como com conduções, onde explora espaços abertos, e conduz para atrair algum oponente e assim também liberar outro companheiro.

Algumas das potencialidades de Frenkie estão citadas acima, e chegando a Barcelona para a próxima temporada o jogador precisará evoluir em algumas áreas do seu jogo: adaptação ao ritmo alto de jogo em competições do mais alto nível, transição defensiva, e controle de ritmo com a bola. Acredito que poderá encaixar inicialmente como meio-campista, “8” , apesar de não se ter um termo para definir sua função/posição em campo pelas características únicas que o jogador possui, futuramente pode até ser o herdeiro de Busquets na posição de volante, “6”. E é aqui onde começaremos a examinar a relação de Frenkie com a minha visão do futebol do futuro

O FUTEBOL DO FUTURO

Nos últimos tempos, tenho assistido, refletido e estudado futebol. E me propus um exercício de criar minha ideia de futebol ideal e de um “Modelo de Jogo”, e a primeira coisa que pensei foi o seguinte: não nomearei o jogador que atua no setor da direita de “lateral-direito” e sim, colocarei como “número 2″. Loucura? No mínimo diferente certo? A natureza do jogo de futebol, é de um jogo aberto(ou seja, dentro das 4 linhas são infinitas as possibilidades de ocorrência), é verdade que podemos observar padrões nas equipes(até por isso se treina), entretanto a incerteza está sempre presente. Acredito que o futebol do futuro será bem mais flúido e dinâmico, com foco na humanização, na psicologia e em outros aspectos para se melhorar a performance.

Vejo que a posição do futuro, apesar de já ter sofrido uma grande evolução nos últimos anos, pode evoluir mais ainda, o goleiro poderá ser usado para criar superioridades númericas e posicionais em uma altura bem maior no campo, fora da sua área, ou até mesmo de suas proximidades, como exemplifica nesse exemplo Julian Pollersbeck do Hamburgo.

Os laterais podem atuar por dentro, assim como Guardiola utilizou Lahm, e podem ser construtores do jogo a partir de uma linha mais recuada, atacar espaços interiores com conduções e diagonais, porque não? Um dos jogadores dinâmicos nessa posição atualmente é Kimmich.

Os zagueiros que já se qualificaram muito com a bola nessa geração, necessitarão de ainda mais evolução, habilidades para rotação com companheiros, domínio do espaço-tempo, de situações de 1×1. Com a bola, passes de todos os tipos e distâncias, conduções com dribles e atração de jogadores adversários, lançamentos para achar espaço e romper linhas adversárias e até envolvimento no ataque em posições mais avançadas, até mesmo na parte de conclusão das jogadas. Podemos ter até jogadores como volantes(Weigl no Borussia Dortmund) atuando na posição ou laterais. Existem inclusive exemplos na América do Sul, como o Defensa y Justicia da Argentina.

No centro do campo, os jogadores necessitarão de ainda mais habilidade, percepção e tomada de decisão rápida, aliada a qualidade técnica, através de passes, dribles e conduções, devido a dinâmica do jogo, o perfil do “todocampista” evoluirá ainda mais, visto que o jogador deverá participar em todas as fases do jogo, o futebolista do futuro deve estar preparado para realização de funções específicas, bem como ser polivalente dentro do jogo.

Os atacantes, cada vez mais precisarão se associar, criar chances para si, mas também criar chances e espaço para os companheiros, além da parte física, o cognitivo será muito importante, visto que poderão fazer rotações mais frequentes e dinâmicas com pontas ou meias. Além disso os domínios técnicos serão ainda mais importante na área do campo onde se existe menos espaço: na área de finalização.

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Os enganos corporais serão cada vez mais úteis para se desmarcar, bem como o posicionamento corporal(citado nas qualidades de Frenkie de Jong), pois as decisões deverão ser tomadas de forma mais rápida e precisa. O jogo poderá caminhar para o caminho da fluídez e da superioridade posicional, visto que o jogador deverá se adaptar as questões do jogo e explorar o espaço disponível com suas qualidades, também se associando e utilizando das habilidades dos companheiros(superioridades socio-afetivas e qualitativas), ressaltando uma das expressões mais importantes na tática e no social: as interações e associações. As interações e a mobilidade dos jogadores serão habilidades imprescindíveis para causar dano ao adversário nos espaços importantes, visto que com o crescimento do Jogo de Posição, o Homem-livre será o foco de neutralização de muitas equipes e ai se necessita de outros tipos de vantagens. Será necessário liberdade, fluídez e ao mesmo tempo equilíbrio.

Se dividem as fases do jogo, de acordo com o momento, e até para contextualização e entendimento de nossa parte isso se faz necessária, mas a verdade é que o jogo é um só(como já dito por Guardiola e outros treinadores), ou seja, quando se ataca, se está também se preparando para defender, e vice-versa, as ações do jogo se tornarão cada vez mais interconectadas, assim como a utlização dos espaços.

A parte tática deverá ser marcada por equipes adaptáveis dentro do jogo(praticar ataque rápido, mas também ataque pausado, por exemplo), bem como mudanças na formação( se inicia um jogo no 1–4–2–3–1 , se modifica para o 1–3–3–3–1, se modifica para o 1–3–5–2 e assim vai, dependendo da necessidade da própria equipe e da atuação e adaptações do adversário em questão, e variando não só os números num suposto quadro tático imaginário e estacionário, mas também a posição e função dos jogadores).

As adaptações de outros esportes serão cada vez mais comuns, não só na parte tática, devemos olhar mais para o handebol, basquete, futebol americano, hockey e outros esportes…

Horst Wein em “The Science of Hockey” em 1972(traduzido):

Nenhum sistema se mantém.

…” Quando a maioria dos jogadores forem ao ataque, assim que a sua equipe ganha a posse de bola, e quando a maioria dos jogadores voltarem para a defesa, logo depois de suas equipes perderem a bola, nós teremos jogadores completos em todas as posições, o único uso real da escalação, será para dizer a qualquer pessoa interessada, quem está jogando e não em qual posição ele está jogando. Os jogadores,portanto,não vão preencher as posições de acordo com seus números nas costas ou para cumprir uma função específica, a posição deles no campo dependerá muito mais de cada situação que ocorre, independentemente do seu número nas costas, e da escalação que aparece no programa do jogo”.

Alguma semelhança com o futuro do futebol? Ou com a filosofia da Laranja Mecânica de Rinus Michels e Cruyff? Podemos nos exercitar para tentar ressignificar as coisas, não só o futebol, como na vida.

Nas análises sempre se usa muito para compreender um jogo ou uma equipe o “porque?”, desde um tempo atrás, adotei, assistindo esporte, seja futebol, basquete, futebol americano, o “porque não?” , porque as coisas não podem ser diferentes, porque não podem ser adaptadas , porque não se pode mudar e melhorar? E é com essa inquietude que avanço cada dia no estudo e na prática como técnico e amante do esporte ao lado das 4 linhas do futebol, com plena certeza de que nunca saberei tudo, ou o suficiente, mas sempre buscando mais.

“Existe uma antiga história sobre dois homens em um trem. Um deles, ao ver algumas ovelhas sem pelagem em um campo, disse: Essas ovelhas acabaram de ser tosquiadas”. O outro olhou por mais um instante e então comentou: Parecem ter sido — deste lado”. — John Holt , How Children Learn.

“De que valeria o pensamento se não nos convidasse a pensar de outro modo, em relação ao que acostumamos?” — Traduzido do perfil de @morenabeltran10

Obrigado e até breve!

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