EM NOME DO AVÔ, PAI E FILHO: MARCOS ALONSO

Por @jessmirandinha

Eu estava num bar de São Paulo, a trabalho, para acompanhar os torcedores brasileiros do Arsenal no clássico contra o Chelsea, pela sexta rodada da Premier League da temporada de 16/17. Além da avassaladora vitória dos Gunners, construída em 45 minutos, acompanhamos uma evolução tática dos Blues a partir da entrada de Marcos Alonso no lugar do ex-ídolo do Arsenal, Cesc Fábregas, culminando no título nacional e elevando as expectativas de retorno do time aos melhores da Europa.


Quase um ano depois, novamente o Chelsea visitava o Arsenal. Desta vez, Marcos Alonso não era um mero substituto e sim um dos protagonistas na caça ao City ciborguiano de Pep Guardiola. O espanhol marcou o gol da virada da equipe, mas também rebateu uma bola de cabeça para Bellerín empatar o grande jogo, placar mais justo, por sinal.

Com a injeção do dinheiro russo, o Chelsea se acostumou a ter plantéis incríveis. Por longos anos, Ashley Cole foi a representação de excelência na lateral esquerda, até o final de 2013. Com o declínio do jogador inglês — que deixaria o clube ao fim da temporada 13/14 — Azpilicueta assumiu a titularidade, quebrando o galho enquanto o clube procurava um substituto ideal. As tentativas de substituir Cole não vingaram, até mesmo quando se apostou em Filipe Luis. Por isso, a chegada de Marcos Alonso, em agosto de 2016, se deu em meio à desconfiança, injustificável ante o histórico familiar.

O camisa 3 do Chelsea é o terceiro Marcos Alonso que se tornou jogador profissional. O M.A. Penã, seu pai, foi um ponta direita que nas décadas de 70 e 80 defendeu o Atlético de Madrid e o Barcelona, inclusive com passagem pela seleção espanhola — foi vice-campeão da Euro 1984, como reserva. Já o seu avô, M.A. Imaz, mais conhecido como Marquitos, se destacou como um zagueiro/lateral direito do Real Madrid por oito anos, conquistando cinco títulos da Liga dos Campeões.

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E foi nos merengues que o atual Marcos Alonso começou a sua carreira. Mas por não vislumbrar chances na equipe principal, tendo disputado apenas um jogo oficial, ele aceitou a transferência para o Bolton, em meados de 2010. Nos Trotters ele ainda pode atuar com Cahill, futuro companheiro no Chelsea.

Poucos meses depois de sua chegada ao time, Alonso se envolveu em uma grande polêmica. Em maio de 2011, ele, seu irmão e o jogador Jaime Navarro, companheiro da época de base, saíram para comemorar, conhecendo Teresa e Bárbara. Ao fim da festa, os cinco entraram no carro de Alonso, que, por conta do teor alcoólico acima do permitido por lei e pela alta velocidade (110km/h, onde o limite era 50 km/h), perdeu o controle do veículo e acertou um muro em cheio em Madrid. Bárbara, de 19 anos, não resistiu e faleceu. Alonso nada sofreu e os outros três tiveram alguns ossos quebrados. O jogador foi indiciado, mas pode continuar a trabalhar enquanto aguardava o julgamento, ocorrido em 2015. A condenação inicial de quatro anos de prisão foi reduzida para um ano e nove meses antes de ser substituída por uma quantia em dinheiro. Entre multa para o estado espanhol, pagamentos de honorários advocatícios e indenizações para a família de Bárbara, Alonso pagou 800 mil euros, estima-se. Ele também teve a sua habilitação suspensa por três anos, cumpridos antes do julgamento final.

Após três temporadas insípidas no Bolton, Alonso saiu de graça para a Fiorentina, onde, novamente, teve dificuldade de adaptação. Assim, seis meses depois de assinar pela Viola, foi emprestado para o Sunderland. Sob o comando de Gus Poyet, Alonso evoluiu e tomou conta da lateral esquerda, sendo peça vital da retomada dos Black Cats. Quando o espanhol chegou, a equipe estava em último lugar. Não só o Sunderland não foi rebaixado — terminou numa honrosa 14º posição — como também foi vice campeão da Taça da Liga Inglesa, perdendo a final de 2014 para o Manchester City, por 3×1.

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Poyet estava certo das qualidades de Alonso e pediu para os dirigentes o comprarem em definitivo. A Fiorentina estipulou o valor de 5 milhões de euros pelo jogador e, apesar de parecer uma quantia modesta para os padrões atuais, o Sunderland não fechou negócio, alegando dificuldades financeiras. Melhor para os italianos, que puderam aproveitá-lo por mais dois anos, em franca ascensão, antes de venderem o lateral para o time azul de Londres, por 23 milhões de euros.

O ponto de virada — e de sucesso — do Chelsea de Conte começou, como visto, a partir da entrada de Alonso no time, porém é ledo engano presumir que o italiano tenha preferência por um esquema com três zagueiros. “Venci com o Bari [Série B – 08/09] e com o Siena [Vice-Campeão Série B – 10/11] usando o 4-2-4.”, explicou o treinador. “Então comecei com esse esquema [3-4-3] na Juventus, passei para o 4-3-3 e depois cheguei ao 3-5-2 porque eu tinha jogadores melhor adaptados para esse esquema. Mas não é meu ‘esquema’ preferido. Meu esquema preferido é aquele que permite meu time vencer.”

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Os números de Alonso na Premier League são bons, mas espetacular mesmo é a liberdade e segurança que ele oferece principalmente a Hazard. A fase cada vez mais goleadora e incisiva do belga, aliás, se deve à presença do ala espanhol, que percorre o lado esquerdo inteiro, ora compondo a defesa numa linha de quatro, para cobrir o avanço do bote de um zagueiro, ora alargando o campo para a fluidez do ataque.

“É uma posição difícil de se jogar. Você precisa correr muito mais e quando você pega a bola, não está mais com tanto pique do que quando joga na lateral.” Assim comentou Alonso sobre a mudança tática de Antonio Conte. Sobre o treinador, ainda, ressalta que “nunca treinou tão forte com nenhum técnico. Os italianos trabalham duro fisicamente e taticamente.”

Marcos Alonso “Neto” agora espera que todo este trabalho duro se reflita na primeira convocação para a Fúria — Lopetegui tem preferido Monreal —, seguindo a tradição de sua família.

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