DO CALVÁRIO AO CÉU

Por @viniciusof*

Quando o árbitro alemão Felix Brych der início à final da Champions League dia 3 de junho, às 15h, a Juventus terá uma nova chance de conquistar o mais almejado troféu do continente, que escapou por entre seus dedos quatro vezes desde a última vez que o ergueu, contra o Ajax, em 1996. No mesmo 3 de junho, só que há dez anos, a Vecchia Signora jogava sua penúltima partida pela segunda divisão italiana. Era um domingo de sol em Bari e um público apenas razoável foi ao estádio San Nicola assistir ao clube mais popular do país, já matematicamente campeão e garantido à elite, perder por 1 a 0 para os anfitriões. Antonio Mirante; Zebina, Legrottaglie, Boumsong e De Ceglie; Birindelli, Zanetti, Venitucci e Balzaretti; Zalayeta e Trezeguet foram os onze iniciais escolhidos pelo técnico Giancarlo Corraldini para o quase derradeiro compromisso na Série B, a qual a Juventus estava relegada a disputar como punição pelo escândalo (conhecido como Calciopoli) de manipulação de resultados na temporada anterior. As escutas incriminaram quatro clubes: Milan, Fiorentina, Lazio e Juventus. Os três primeiros foram penalizados com pontuação negativa na Serie A seguinte. A Juve, além de rebaixada, iniciou seu calvário com menos nove pontos.

O único remanescente daquele elenco é o goleiro Gianluigi Buffon, que na última década viu seu clube se transformar numa potência europeia novamente. A Juventus é sem sombra de dúvidas um dos mais exitosos casos de reconstrução – que se torna ainda mais impressionante diante do contexto de decadência econômica da Itália e da liga nacional.

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O MENTOR DE TUDO

A equipe treinada por Massimiliano Allegri talvez seja a maior representação atual de organização coletiva. O time que começa por Buffon e termina em Higuaín é extremamente consciente de como se comportar em todas as fases do jogo. Uma máquina de defender, que com o tempo tornou-se também letal com a bola nos pés. Mas, muito antes de Allegri chegar, quando ainda nem seu antecessor Conte havia sido contratado, a Juventus deu seu mais importante passo para reconstrução. Após três temporadas coadjuvando na elite, a direção bianconera foi à Genova se encontrar com aquele que todos consideravam responsável pela surpreendente campanha da Sampdoria na Seria A de 2009-10: Giuseppe “Beppe” Marotta; o dirigente que havia encontrado Angelo Palombo no Urbania, da Serie D, que tirou Giampaolo Pazzini da Fiorentina e apostou as fichas no desacreditado Antonio Cassano, hoje ídolo máximo do clube. Com o estofo de ter levado um elenco modesto à Champions League, Marotta assinou um acordo com o presidente Andrea Agnelli, que lhe concedera carta branca para atuar no mercado.

Na primeira temporada foram gastos €59 milhões; dividos nas contratações de Bonucci, Barzagli, Matri, Krasic e Quagliarella. O comandante do novo esquadrão era o técnico Luigi Delneri, com quem Marotta trabalhara na Sampdoria. O 7º lugar teve como consequência uma troca no comando técnico, que na temporada seguinte iniciou com Antonio Conte. Ídolo como jogador, mas ainda uma incógnita como técnico, Conte recebeu Arturo Vidal, Andrea Pirlo, Stephan Lichtsteiner, Mirko Vučinić, Simone Pepe e o Juventus Stadium. A nova casa reduziria de 69 mil (do antigo delle Alpi) para 41 mil a capacidade de espectadores, mas multiplicaria a capacidade do clube em rentabilizar verba com a venda de ingressos e aluguel da arena para grandes eventos. Iniciaria ali uma era de sucesso e predomínio absoluto no país. De lá pra cá foram conquistados seis Campeonatos Italianos, três Copas da Itália, três Supercopas da Itália e duas finais de Champions League. Tamanho êxito pode ser explicado por alguns pilares administrativos juventudistas:

TALENTO EM PROSPECTAR

Enquanto os rivais locais desembolsam fortunas para se tornar competitivos, a Juve se notabilizou por conseguir reforçar seu time com pouco. Quando não se tem a fortuna de Real Madrid, Barcelona ou Manchester United é preciso reconhecer a importância da prospecção de atletas; e esta tornou-se uma especialidade de Marotta. Seus olhos no mercado têm nome e sobrenome: Fabio Paratici, homem que o acompanha desde os tempos de Sampdoria. Paratici foi scouting em Genova e hoje é braço direito de Marotta. Um homem capaz farejar Paul Pogba na base do Manchester United e trazê-lo de graça para Turim, capaz de pagar €300 mil ao Wolfsburg por Andrea Barzagli, contratar Arturo Vidal por €12,50M e revendê-lo por €37M aos 29 anos.

Antes de recolocarem a Vecchia Signora entre as principais potências da Europa, Marotta e Paratici foram criteriosos e criativos. Fecharam com Pirlo quando o Milan o descartou e mais recentemente fizeram o mesmo com Sami Khedira e Daniel Alves. Tudo de graça. Transações de baixo valor dão fôlego financeiro para o clube fazer investimentos mais altos. E, depois de tanto pechinchar no mercado, a Juve se viu pronta para ser mais agressiva.

Fabio Paratici (E) e Giuseppe Marotta.

Fabio Paratici (E) e Giuseppe Marotta.

ENFRAQUECENDO RIVAIS

Saudada financeiramente com boas vendas, estádio sempre cheio e verba da Champions League de volta aos cofres, a Juventus se viu segura a investir pesado para brigar de igual com os gigantes do continente. A saída então foi se aproveitar da fragilidade dos rivais locais, que dificilmente avançavam em competições europeias e se tornavam pouco atrativos para seus jogadores mais reconhecidos. Afinal, que atleta não preferia seguir morando no mesmo país, jogando a mesma liga, mas numa equipe estruturada, em condições de disputar qualquer título? Pensando assim os bianconeros tiraram Paulo Dybala do Palermo por €40M, Miralem Pjanic da Roma por €32M e Gonzalo Higuaín do Napoli por €90M – sendo a última aquisição a mais cara da história do clube. Além de se reforçar com jogadores de nível mundial, a Juve tirou os protagonistas de seus principais rivais Roma e Napoli, aumentando ainda mais o abismo técnico para a concorrência doméstica.

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REPOSIÇÃO DE QUALIDADE

A equipe que perdeu o título da Champions League de 2014/15 para Barcelona tinha um meio-campo composto por Pirlo, Marchisio, Vidal e Pogba, que alimentava a dupla Tevez e Morata. Dos citados só Marchisio resistiu à debandada. A reposição veio na janela seguinte, com Sami Khedira, Hernanes, Cuadrado, Mandžukić, Llorente e Dybala. É bem verdade que nem todos que chegaram corresponderam às expectativas, mas ninguém pode acusar Marotta de inércia diante das perdas.

Embora esteja no mais alto patamar europeu, a Juventus não pode competir financeiramente com Real Madrid, Barcelona e Bayern de Munique. Por isso está sempre de olho em eventuais substitutos para as peças que se destacam. Em Turim a aposta é que a próxima proposta milionária seja por Dybala. Espera-se que, com o argentino, o clube consiga a sua maior venda da história, ultrapassando os €73M que o Real Madrid pagou por Zidane em agosto de 2001.

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DISNASTIA AGNELLI

Quando Paulo Dybala marcou o primeiro gol da vitória por 3 a 0 sobre o Barcelona pelas quartas de final da Champions League, a transmissão italiana rapidamente focou numa cabine, onde o presidente Andrea Agnelli celebrava abraçado no primo, John Elkann. Elkann é o presidente do império FIAT (fundado em 1899 por seu bisavô Giovanni Agnelli) e neto de Edoardo Agnelli, primeiro membro da família a assumir o controle da Juventus, em 1923. De lá o clube passou pelas mãos de Gianni Agnelli e Umberto Agnelli, presidente de honra do clube até falecer, em 2004. Umberto é pai de Andrea, que assumiu a Juventus em 2010, sucedendo o francês Jean-Claude Blanc, o único presidente a interromper a dinastia Agnelli entre 1947 e 2017.

A Blanc coube a ingrata missão de reestruturar um clube quase sempre comandado pelo mesmo sobrenome. É duro competir com o capital de uma das maiores fabricantes de automóvel do mundo. O fato é que a torcida da Juve sempre se sentiu segura com o clube nas mãos dos Agnelli. Andrea chegou respaldado pelo histórico familiar e trouxe consigo boas práticas de gestão. Na Juve, as decisões são tomadas por em colegiado composto por sócios investidores, numa sistemática semelhante a que ocorre no Bayern de Munique.

Andrea Agnelli, o mais recente herdeiro do império familiar.

Andrea Agnelli, o mais recente herdeiro do império familiar.

UMA COPROPRIETÁRIA DE SUCESSO

Há um modelo de negociação que só existe no futebol italiano; as copropriedades. A Juventus tornou-se mestra neste sistema de negócio, que consiste da seguinte maneira: 50% dos direitos (ou do “passe”) de um jogador com pelo menos dois anos de contrato com o clube são negociados com outra equipe por um ano. O atleta passa então a atuar pelo clube que adquiriu metade dos seus direitos, como num empréstimo. Ao final da temporada a copropriedade pode ser renovada, o jogador pode ser integralmente adquirido por uma das duas partes ou até mesmo por uma terceira interessada. Mas e se ambas as partes decidem comprá-lo? Simples, o negócio ocorre “às escondidas”, com ambos os clubes oferecendo propostas em envelopes fechados. Quem oferecer mais assegura a integralidade do passe.

Se valendo deste modelo, a Juventus já lucrou mais de 8 milhões de dólares com o atacante Ciro Immobile, que pouco atuou no clube. Em 2007 negociou Claudio Marchisio como copropriedade ao Empoli. Depois de uma boa temporada comprou os outros 50% do meio-campista. Também foram negociados pelo clube como copropriedades Emanuele Giaccherini, Mauricio Isla, Kwadwo Asamoah, Sebastian Giovinco, Manolo Gabbiadini e Simone Zaza. Na grande maioria dos casos o clube se beneficiou da qualidade dos atletas em campo e/ou lucrou financeiramente fora dele. A lógica é: se o atleta se desenvolver o lucro é certo, mas caso não aconteça a perda é mínima. Enquanto rivais gastam milhões com empréstimos e compras, a Juve investe nas copropriedades para desenvolver seus jovens jogadores (como Marchisio, Giovinco e Immobile) e apostar em outros (como Asamoah e Isla).

Ciro Immobile

ESCOLHA CERTEIRA NA CASAMATA

Se a escolha por Luigi Delneri se mostrou equivocada, por outro lado o clube não errou mais o planejamento na contratação de treinadores. A aposta em Conte foi certeira e, quando o ex-zagueiro decidiu tomar novos ares, o clube foi rápido ao substitui-lo por Massimiliano Allegri, vencedor da última Serie A conquistada pelo Milan, em 2010/11. Conte consolidou um 3-1-4-2 de muita solidez defensiva e Allegri chegou mantendo o escopo do time bicampeão italiano, mas incorporando repertório tático. A Juventus ainda defende com linha de cinco, mas que em muitos momentos do jogo torna-se uma linha de quatro ou de três defensores. Um time líquido e versátil, talhado pelas exigências que o futebol de alto nível impõe. Além de manter o esquema de Conte, a Juve de Allegri soube se remontar a partir das saídas. Se perdeu Pirlo, Vidal e Pogba jogando num 4-3-1-2; mudou mais uma vez a engrenagem, retornando ao 3-4-1-2, com um time em alta velocidade pelos lados com Dani Alves e Alex Sandro. O controle de meio-campo, antes incumbência de Andrea Pirlo, agora esta a cargo de Pjanic e da incrível capacidade física de Sami Khedira. Se a Juventus de Conte era um projeto de potência internacional, a de Allegri é uma realidade possível apenas pela continuidade de um trabalho iniciado em 2011. Continuidade; esse é o mantra em Turim.

Juventus, il ct Antonio Conte in visita a Vinovo

* Colaborou @maiiron_