CONTROLANDO SEM A BOLA, FRANÇA É BICAMPEÃ DO MUNDO

Por @RGomesRodrigues

Após ter realizado um torneio partindo de menos para mais e ter atingido um nível de segurança acima da média, caracterizado pela capacidade da defesa em afastar o perigo da área de Hugo Lloris, a França passou pelos piores 45 minutos de todo o Mundial diante da Croácia.

O trabalho de Marcelo Brozovic, organizando desde a base do triângulo, e Ivan Rakitic, que tirou Paul Pogba de seu lugar em diversas ocasiões, ao buscarem a bola no pé e utilizarem a largura do terreno com seus laterais para encontrar Luka Modric e Ivan Perisic mais à frente foi fatal para a organização defensiva da França. Além de Pogba, que desprotegeu sua zona ao perseguir Rakitic, N’Golo Kanté não conseguiu praticar suas interceptações clínicas por estar perdido no espaço à frente da defesa diante da qualidade na gestão da posse do meio croata, além de não contar com a ajuda de Blaise Matuidi, que teve que administrar Modric no mesmo lado de Sime Vrsaljko e por vezes não tinha a ajuda da primeira linha composta por Griezmann-Giroud. Com isso, a Croácia teve sucesso em desfazer o pilar que sustentou o jogo da França em boa parte da competição, não só com a bola no pé, mas também na personalidade de seus homens traduzida nos duelos disputados, mas foi incapaz de agredir a meta de Lloris com sucesso pela falta de criatividade.

Ao tirar a bola da faixa central, a defesa da França encontrou facilidades para conter a agressividade dos croatas e a última linha dos Bleus somou intervenções importantes ao longo da partida para afastar o perigo iminente que ameaçava o gol de Lloris. Com isso, a França fez um dos piores jogos em relação ao que apresentaram com bola rolando, mas foi em dois momentos que não estiveram diretamente ligados ao que aconteceu na primeira etapa que chegaram ao sucesso, já que de certa forma, a equipe de Didier Deschamps trabalha para condicioná-los através de transições rápidas e, como sempre, precisou de pouco para transformar o que tiveram ao seu alcance em gols.

Tanto que o 1 a 0 surge numa cobrança de falta conseguida por Antoine Griezmann e o 2 a 1 de pênalti, marcado por Antoine, vem num escanteio que Domagoj Vida oferece após afastar a bola que foi lançada no espaço para Kylian Mbappé por Lloris numa reposição rápida. 2 a 1 que colocou um freio nas intenções da Croácia, tanto pelo tempo que esfriou a animosidade dos comandados de Zlatko Dalic e pela resposta relativamente rápida que a França mostrou após o gol de Perisic, que também surgiu de uma ocasião de bola parada. Se os Bleus precisaram de pouco diante do produzido (apenas uma finalização durante toda a primeira etapa), a Croácia, por outro lado, não foi eficiente ao ponto de incomodar o gol adversário ao atacar mais na insistência e menos na clareza e apenas duas (uma de Perisic no 1 a 1 e outra de Rebic defendida) das sete finalizações foram ao alvo.

Na volta para o intervalo os croatas voltaram a mostrar a força que os colocaram como a melhor equipe dos 45 minutos iniciais exigindo o trabalho de Lloris em três ocasiões, além de testemunharem o trabalho imperial de Raphaël Varane e Samuel Umtiti no centro da defesa. Com dificuldades, Didier Deschamps resolveu corrigir uma das lacunas de sua seleção no jogo e promoveu a entrada de Steven N’Zonzi no lugar de N’Golo Kanté para melhorar a capacidade de contenção enquanto a Croácia teve fôlego. Fôlego que já havia sido ameaçado aos 51 minutos com um lançamento de Pogba ao acionar Mbappé no espaço e que foi confirmado aos 58′. Na expectativa de recuperar a bola em zonas mais altas, a Croácia acabou deixando o espaço necessário para os franceses explorarem com uma jogada semelhante. A segunda oportunidade de ter Kylian lançado no espaço foi fatal, após os Bleus recuperarem a bola no centro do campo, e na sequência do contra-ataque o próprio Pogba acabou finalizando a jogada que iniciou direto para as redes de Danjiel Subasic.

DESCHAMPS

O 3 a 1 foi um golpe para a motivação da Croácia e acabou soltando de vez a França, que resistiu defensivamente de forma impecável e minutos depois, num momento que esboçava uma temporização do jogo para respirar e frear o ritmo do rival, chegou até o 4 a 1 com Mbappé com grande colaboração de Subasic. A tranquilidade da França para o resto do jogo foi tamanha que até um erro grotesco de Hugo Lloris, entregando o 4 a 2 para Mario Mandzukic, foi perdoado e assim a França foi sagrada campeão da Copa do Mundo de 2018 na Rússia.

O trabalho iniciado em 2012 por Didier Deschamps tinha o objetivo de colocar ordem numa seleção que era um fracasso total no âmbito esportivo e midiático. A queda em 2014 e a derrota em casa para Portugal na Eurocopa de 2016 foram os golpes necessários para Deschamps aprender nos momentos de derrota e hoje, a geração talentosa que os franceses revelaram chegaram ao bicampeonato mundial 20 anos após a primeira conquista.

Partindo da premissa de controlar o jogo sem a bola, Didier Deschamps melhorou peças em seu elenco, que já havia ganho uma espinha dorsal com Griezmann e Giroud no andamento da Eurocopa de 2016. Com isso, aumentou o talento em certas posições e administrou um grupo de jogadores jovens a obter um estado de espírito que não era reconhecido há anos no ambiente da seleção gaulesa. Consciente da capacidade de seus jogadores, Deschamps montou uma equipe sólida, capaz de resistir a qualquer ameaça. A adição de jogadores como Benjamin Pavard e Lucas Hernández na linha defensiva, já de um nível de classe mundial com Hugo Lloris, Raphaël Varane e Samuel Umtiti, foi essencial para reforçar o sistema que colocou o talento para servir o coletivo (o corte de Rabiot foi a notícia mais impactante, mas talvez foi a mensagem final que restava a ser enviada). Receita que deu muito certo para elevar o jogo do criticado Paul Pogba e ressaltar mais o trabalho de Antoine Griezmann, como o motor que faz a engrenagem girar, e Olivier Giroud e Blaise Matuidi, para complementar com qualidades únicas o entorno que aproveita bastante do talento de Kylian Mbappé, a grande próxima estrela do futebol mundial.

“Eu olho para a frente para conquistar meus objetivos. Foi realmente doloroso não ter conquistado o campeonato da Europa dois anos atrás… Aprendi bastante em 2016… O fato de valorizar demais o evento… Acentuei demais as coisas para o lado emocional. Na abordagem desse tipo de jogo a descontração que é o importante. Estou orgulhoso por eles terem buscado essa estrela e um pouco de mim mesmo também, com toda a humildade”, palavras de Didier Deschamps na coletiva de imprensa.

Seis anos. Uma eliminação na Copa de 2014 e a derrota na final ante Portugal na Euro 2016 para atingir o sucesso em 2018. O tempo e o trabalho novamente foram parte fundamental da receita que levou mais uma seleção até o topo e agora, 20 anos depois, eterniza mais 23 nomes num patamar, num hall de relevância que parecia intocável, mas que tem um nome em comum: Didier Deschamps.

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