CAUSAS DE UM FRACASSO

Por @RGomesRodrigues

A segunda temporada de Unai Emery no comando do Paris Saint-Germain pode ser tratada como uma verdadeira decepção. A queda diante Real Madrid foi um golpe de realidade, tanto para o clube, quanto para o treinador espanhol, numa temporada de investimentos nunca vistos no futebol mundial realizados pelo PSG.

O 6 x 1 ante o Barcelona no ano passado e o vice-campeonato da Ligue 1 foram resultados expoentes dos problemas futebolísticos que Emery enfrentou durante toda a temporada de 2016/2017, seja pelo elenco desequilibrado ou pela falta de uma referência desde a saída de Zlatan Ibrahimovic. O espanhol, no entanto, trabalhou para agregar mais qualidades ao jogo do PSG e tornar a equipe mais competitiva. Não foram poucas as vezes que vimos o antigo treinador do Sevilla deixar o habitual 4-3-3 e tentar fazer de Marco Verratti um jogador mais presente no último terço do campo, além de ter tornado o Paris uma equipe mais mortal na execução de contra-ataques, aspecto bastante visível no jogo de ida contra o Barça que terminou em 4 x 0 a favor dos parisienses, por exemplo.

“¿Cuáles son los cambios que se tendrían que hacer? Detalles de trabajo táctico y de esa mentalidad que he transmitido yo al Sevilla. Como mirar más la portería contraria, mejorar la presión en defensa sobre los equipos rivales, defender un poquito más lejos de nuestra portería… Pero la idea general y el estilo no cambian.”

Em entrevista para o El País em novembro de 2016, Emery explicou quais eram os aspectos nos quais sua equipe deveria melhorar 

No entanto, a atual temporada não significou uma evolução em relação ao que o Paris Saint-Germain vinha produzindo e falta de identidade e coesão ficaram mais claras. Apesar das transições ofensivas terem crescido ao ponto de serem caracterizadas como uma das mais poderosas do mundo, a equipe perdeu força ao organizar ataques e ao defender a própria área.

A equipe que bateu o Lyon por 4 x 1 no Tropheé des Champions em 2016, representando bem as ideias de Emery, parece estar bem longe do que se tornou o PSG atual

A figura de Neymar e do acréscimo de talento que a equipe teve com o brasileiro e Mbappé ganha importância aqui. Apesar de passar a impressão de que houve melhora na fluidez dos ataques do clube francês, por conta do desempenho dentro da França e dos consequentes números que o setor produziu com a influência do brasileiro, o que aconteceu realmente foi uma verdadeira regressão em relação à organização do jogo coletivo.

Neymar, que não tem nada a ver com a falta de ordem, seguiu jogando seu futebol e assim passou a ser solução para boa parte dos problemas da equipe com a bola, já que foi hábito vê-lo conduzir jogadas a 40 metros longe do gol adversário para transformar “nada” em ocasiões através de suas qualidades físicas, para trocar de ritmo, técnicas, para envolver e eliminar adversários, e mentais, já que o camisa 10 do PSG é um jogador extremamente agressivo e insistente.

Um exemplo recente de como Neymar transforma em ouro boa parte das jogadas em que é acionado

Considerando sua insistência e agressividade como um aspecto pessoal positivo e determinante em seu estilo, tais aspectos também acabam pesando de forma negativa no desempenho de sua equipe. O PSG simplesmente não possui estrutura dentro de campo para lidar com a desordem que Neymar ou Kylian Mbappé criam, da mesma forma que não possui estrutura para tornar Daniel Alves, um lateral de características únicas no futebol mundial, um real ativo dentro do processo coletivo, por exemplo. Com isso, a busca de coesão foi totalmente interrompida por conta dos problemas que se tornaram crônicos ao longo de toda a temporada e acabaram sendo fatais contra ninguém menos que o Real Madrid.

Sem os zagueiros estarem envolvidos de forma direta na construção, deixando mais responsabilidade que o necessário para os meio-campistas (de perfil redundante por buscarem sempre a bola no pé) construírem e criarem boa parte das jogadas, com pouca profundidade oferecida pelos laterais, tendo os extremos posicionados mais fora do que dentro do bloco adversário para receber a bola no pé (considerando que Edinson Cavani não é um atacante que vai agregar trabalhando fora da área e Ángel Di María não é jogador para ultrapassar três ou quatro adversários a cada condução), o PSG encontrou um verdadeiro bloqueio na missão de criar oportunidades de gol.

O 2 a 0, placar que era necessário para bater o maior vencedor da UEFA Champions League no papel, pareceu distante desde os primeiros minutos de jogo e o clube francês acabou sucumbindo diante de um adversário de topo, que exige um nível que está muito acima do que o clube praticava a cada final de semana, independente de ter Neymar ou não presente no onze e mais independente ainda do nível dos adversários locais na França.

Muitos jogadores paralelos ou atrás da linha da bola, com os extremos mais fora do que dentro da defesa do adversário

Além dos problemas ofensivos, há outro aspecto que realmente torna o Paris Saint-Germain uma equipe de nível abaixo do exigido, seja no âmbito nacional ou europeu: a transição defensiva. Após a perda de posse, o adversário que está com a bola no pé não é incomodado e, ao invés de fechar espaços e tentar conter a resposta do rival de forma imediata, a defesa recua e baixa até a própria área de forma passiva. Com isso, considerando o envolvimento quase nulo dos homens de frente no processo defensivo, a equipe dá tempo e espaço para o adversário pensar e organizar contra-ataques até chegar próximo da área de Aréola.

Com poucos toques, o Real Madrid conseguiu passar da sua intermediária defensiva até a ofensiva e retomou o controle do jogo

Por mais modesto que seja, o Guingamp também foi capaz de causar dano contra o PSG

A pouca sinergia entre os setores para tornar o PSG numa equipe competitiva do seu primeiro até o último homem e a extrema dependência na capacidade do indivíduo para criar desequilíbrios e obter o prosseguimento do jogo também pode se encaixar na situação de Marco Verratti. A sua personalidade agressiva ao defender sempre foi um dos pontos fracos em relação ao seu jogo e, com o envolvimento emocional e pouca ordem, o jogador acabou sendo expulso e sua saída foi um fator determinante para que seu clube ficasse mais longe de um resultado positivo.

No fim, a queda do desempenho geral em relação ao ano passado é evidente e a sensação de impotência em relação ao projeto é grande. Sem podermos concluir se houveram divergências entre os jogadores, um mal-estar do elenco junto ao treinador ou se algum outro problema colaborou, a conclusão é que o trabalho de Unai Emery simplesmente não foi bom o suficiente. A opção em insistir com Giovanni Lo Celso e de não colocar Julian Draxler, jogador que possui uma leitura de jogo acima da média, são mais fatores que colocam um ponto final na trajetória do espanhol no comando do PSG e no fim é difícil afirmar se o ciclo de Emery na França deixou algum legado, seja em relação a um jogador ou para o clube como um todo dentro de campo.

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