ANDRÉS INIESTA: A CONDUÇÃO, A RETENÇÃO E O PASSE

 Por @_GabrielCorrea e @PepGenius

A saída de Andrés Iniesta do Barcelona pode ser um marco na história do clube e em mudanças dentro de campo, mas antes de qualquer tipo de análise, precisamos falar sobre este pequeno espanhol, nascido em Fuentealbilla e o maior jogador da história da Fúria.

Andrés nunca foi o mais forte, o mais alto ou o mais rápido. O camisa 8 sempre se destacou por sua inteligência nos movimentos, sutileza dos passes e um senhor disputando finais – foi eleito melhor em campo na Copa de 2010, na Euro 2012, na Champions 14/15 e tantas outras decisões.

“Esta será a minha última temporada aqui. É uma decisão onde pensei bastante e refleti internamente e com meus familiares. Entendo que, depois de 22 anos, conheço o significado de ser jogador da melhor equipe do mundo. Eu sei qual é a exigência

Se eu tivesse imaginado encerrar a minha carreira aqui, eu queria que tivesse sido dessa forma: me sentindo útil, importante, titular e com opções de ganhar títulos. É um dia difícil, porque levo a minha vida toda aqui. Dizer adeus para a minha casa é complicado

Estive no futebol de elite por 22 anos em um clube que deu tudo para mim e minha família. Me sinto orgulhoso e em paz comigo mesmo, porque o meu objetivo era triunfar neste clube e sinto que consegui fazer isso. Não há algo que me faça mais feliz do que isso

Quero ser recordado como um grande jogador e uma grande pessoa. No final, o futebol passa e só resta a imagem como pessoa. Eu tentei representar o clube da melhor maneira possível e espero ter conseguido. Serei eternamente grato a todos” – Andrés Iniesta Luján, em sua coletiva de despedida

Iniesta é a representatividade de todos os princípios do Futbol Clube Barcelona. Iniesta ama seu clube. Iniesta é leal aos seus companheiros. Iniesta luta por um jogo limpo. Iniesta é amado e aplaudido em todos os estádios da Espanha, principalmente, após o gol do Mundial em 2010.

Andrés nunca conquistou um Ballon D’Or. Andrés marcou época na era de Messi e Cristiano Ronaldo. Andrés respira e simboliza uma palavra: futebol.

A simplicidade de Iniesta em seus gestos faz muitas vezes que a gente esqueça seu tamanho. Pequenos movimentos, passes, dribles, conduções e toques que o transformam num exemplo de jogador a ser seguido e por isso nossa homenagem não fica restrito ao atleta, mas como sua forma de jogar pode ser importante e deve ser observado pelos outros.

Muchas gracias, Don Andrés.

EED-Iniesta


No futebol existem várias condutas, as que serão abordadas aqui tem participação na fase ofensiva, ou seja, quando o jogador/equipe é portadora da bola. São recursos muito utilizados também no Jogo de Posição, filosofia de Pep Guardiola, Sarri entre outros treinadores.

Condução

A condução se caracteriza pelo ato do jogador muitas vezes carregar a bola de forma dominada e pode ser um excelente utensílio para alívio de pressão, atração da marcação rival, ruptura de linhas, perturbação no sistema adversário. Porém, não se conduz por conduzir, o jogador que carrega a bola deve saber que essa sua ação provoca modificações no jogo, não somente no espaço de fase que ele atua ou no espaço perto, e sim em toda estrutura, até nos jogadores mais afastados, e é necessário de que o jogador tenha consciência do que ocorre enquanto ele conduz a bola em sua própria equipe e no rival, e porque aquela ação está sendo realizada.

Portanto, para jogar melhor através da condução é imperativo ter a consciência de quais são os consequências desse processo.

Retenção

A retenção pode ser caracterizada quando o jogador escolhe “segurar a bola” por um período maior que o normal e pode até não parecer a melhor decisão, mas há de se ter sempre um motivo para isso. Não é reter a bola por acaso, é reter a bola esperando o tempo exato para um passe entrelinhas, para a atração do marcador, para a movimentação do companheiro, para que as condições propiciadas pelo próximo passe da jogada sejam melhores para o jogador que está recebendo e ele tenha mais tempo/espaço para tomar a próxima decisão de circulação de bola ou desequilíbrio na jogada individual.

2012-06-10-España-Italia

É jogar com o psicológico adversário, se fingindo de morto quando estás mais vivo do que nunca. É ser fênix instantaneamente. Ninguém melhor para ilustrar essa conduta do que Andrés Iniesta, que personifica a entrega de bola em condições melhores para seus colegas de equipe, é quem acelera, pausa, acelera, finge que está parado e, de repente, concede uma assistência para o companheiro marcar. Com um sistema cognitivo privilegiado, antevê a jogada, já sabe qual é o próximo passo, ou os próximos dois, e só espera o segundo exato para realizar a ação definidora e precisa.

Passe

O passe também é utilizado como a principal forma para desestruturação do rival e consequentemente a organização da própria equipe, buscando gerar superioridade circunstancial, seja ela posicional, numérica, cinética ou individual, além do passe ser o meio de comunicação entre um jogador e outro, responsabilidade do passador e também do receptor.

Nos dias de hoje é normal ver os zagueiros centrais fazendo a condução para atrair algum marcador, e depois, no momento exato, passam a bola para um companheiro que está sob menos pressão. Bem como se uma equipe lhe pressiona na saída de bola com o goleiro, pode-se reter a bola, usá-la como isca para atrair mais o rival e propiciar buracos nessa estrutura, achando alguém com mais tempo e espaço para continuar a jogada. Comportamentos como esses são comuns também no terço ofensivo do campo e são muito usados para a geração perturbações na estrutura adversária. No passe também há de se ter consciência como jogador de “o que estou realizando”, “para quê” e “por qual razão”. Ou seja, estar consciente das consequências de tal ação a nível coletivo.

Para mim, o Jogo de Posição é representado por Iniesta. É entregar tempo, espaço, melhores circunstâncias para que se passe a bola. É compreender o sentido de toda relação com os companheiro, é partir separado para se juntar nos lugares precisos. É o descobrimento do significado de minha intervenção com a bola. É valorizar a que a minha não intervenção facilita determinadas coisas” – Oscar Cano

Exemplo: passamos a bola em conjunto de vários jogadores próximos e de forma rápida até que a estrutura do rival esteja modificada o suficiente, com marcadores sendo atraídos para a zona da bola e criando um espaço que detectamos como efetivo para uso em ação ofensiva, por razão de superioridade numérica (ter mais jogadores no setor) e/ou individual (o jogador que está no setor é mais fraco tecnicamente/fisicamente). Resumindo, alterar a estrutura do rival para criar uma situação benéfica a nossa equipe.

Conclusão

Ao executar as ações no jogo o jogador deve ter consciência das causas e consequências dessa ação, ou seja qual o significado da minha intervenção num sentido coletivo? Ou em alguns casos mais importante ainda, qual o sentido da minha não intervenção nessa jogada? Em algumas situações “não fazer nada”, não se movimentar é a melhor coisa a se fazer, seja porque pode ser o beneficiado num momento futuro da ação atual ou porque parado pode abrir espaço pra outros companheiros em outros lugares, pode atrair o marcador, entre outras razões.

Penso, logo jogo.

Para finalizar, um vídeo genial de Andrés Iniesta, realizando as três condutas citadas no texto em uma jogada só, vale a pena ver.

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