ACREDITAR ATÉ O FINAL

Por @_GabrielCorrea

As palavras convicção e projeto deveriam caminhar juntas em qualquer hipótese. Podemos dizer que Enrique ‘Quique’ Setién, 58 anos, é um poço de ideias sobre o jogo. O técnico espanhol assustou o mundo pela maneira como colocou o Real Bétis para enfrentar (e ganhar) o Real Madrid em pleno Santiago Bernabéu, mas foi no Las Palmas que mostrou ser um treinador que gostava de ter a bola, atacar e fazer com que os jogadores se divirtam dentro de campo.


QUEM É SETIÉN?

Nascido na cidade de Santander, Setién foi um centrocampista com algum sucesso, tendo passado por Racing Santander, Logroñés e Atlético de Madrid, chegando a disputar três jogos pela Seleção da Espanha nos anos 80. Se aposentou em meados da década de 90 e começou sua carreira como treinador em 2001. Seu trabalho de afirmação foi no Lugo, entre 2009 e 2015, quando subiu os Albivermelhos da terceira para segunda divisão espanhola.

Foi chamado para comandar o Las Palmas na temporada seguinte e mesmo com o objetivo do clube ser apenas permanecer na primeira divisão, Setién conseguiu fazer Los Amarillos fazerem um jogo fluído de toque de bola e capaz de incomodar Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid em seus confrontos por La Liga. Decidiu não permanecer nas Ilhas Canárias ao final da temporada 2016/17 e seu nome era pedido por diversos torcedores do Barcelona com a saída de Luis Enrique. Porém, decidiu rumar a Andaluzia onde comandaria o Bétis.

ESTILO DE JOGO

O Real Bétis parte do princípio que ter a bola é a melhor forma de se defender, algo que Pep Guardiola sempre falou em suas entrevistas. Quique Setién tem o ‘Jogo de Posição’ como ideal a partir de seus principais conceitos: saída de 3, amplitude com os laterais, aproveitar os espaços pelo meio com os meio-campistas e uma última linha muito móvel.

Real Bétis - Jogo de Posição

Na partida contra o Real Madrid, alguns números chamaram ainda mais atenção no time de Quique Setién que busca se defender através da posse de bola. A equipe de Andaluzia passou a dominar no últimos 20 minutos de jogo. Na reta final de partida, foram 4 chutes do Bétis contra 3 do Real Madrid (até o minuto 25 eram 24 chutes do Real).

E o mais importante: na reta final de jogo, buscando se defender, o Bétis começou a dominar o jogo também na posse de bola 53% para os Verdiblancos em plento Santiago Bernabéu. O resultado final vemos no gol que teve os 11 jogadores tocando na bola. Uma aula.

Dentro das partidas, algo muito importante de ressaltar e possível observar também em alguns gols do Bétis: o passe para trás não significa um recuo ou medo de atacar. Na maiorias das vezes, uma equipe retorna a bola ao defensor para buscar o melhor lado para começar um novo ataque.

CONVICÇÕES

As ideias de Quique Setién ficaram muito claras no jogo contra o Real Madrid e em sua coletiva antes da partida. As palavras do treinador deveriam servir para qualquer ocasião. Não há como mudar um estilo de uma hora para outra.

“Não se pode trocar da noite para o dia algo que você está há meses trabalhando e trata de melhorar a cada dia… A ideia não vai mudar. Não posso trocar o chip dos meus jogadores, já demanda tempo convencê-los a fazer algumas coisas e ir integrar outras para simplesmente mudar de uma hora para outra. É como se você estivesse ensinando seu filho a fazer algo de uma maneira e no dia seguinte pedisse para ele fazer de outra forma. Ele vai estranhar e sentir. Há que manter uma linha. Muitas coisas dramáticas devem acontecer para se mudar algo”

Agora, quero abrir um momento de reflexão. É realmente necessário ter jogadores acima da média para propor o jogo? A pressão e a cultura brasileira não permite essa continuidade dos técnicos em equipes de menor expressão? É possível trazer mais exemplos como esse ao Brasil? Comentem aqui no blog ou em nosso Twitter.

Comment List

  • Maurício Simões 02 / 10 / 2017 Responder

    Não creio que seja preciso necessariamente de jogadores acima da média para propor o jogo, mas creio que é preciso fundamentalmente incutir uma mentalidade nos atletas, por exemplo como o Setién faz no vídeo. Quanto mais estimulados mentalmente os atletas forem, mais acessível se torna a captação da proposta do técnico. É claro que ter jogadores mais inteligentes em campo facilita o trabalho.

    Sobre a segunda pergunta: na maioria das vezes, a pressão e questão cultural viram empecilhos para a continuidade. Para um trabalho mais encorpado e contínuo ser aceito, é preciso ter respaldo completo de quem dirige o clube, por exemplo como aconteceu no Brasil de Pelotas com o técnico Rogério Zimmermann até este ano. E é preciso ter boa vontade por parte dos dirigentes para que se tenha continuidade em momentos de crise no começo do trabalho.

    Sobre a última questão: acredito que seja sim possível trazer mais exemplos assim no Brasil. A mentalidade de se guiar única e exclusivamente pelos resultados para avaliar um trabalho tem sido quebrada pouco a pouco. Já há uma maior boa vontade para que se dê tempo ao tempo. Em times menores, a maior dificuldade para um técnico implantar sua proposta de jogo é o tempo. Os jogadores também precisam de tempo para assimilar o que o técnico traz. Muitas vezes os atletas se deparam com propostas completamente distintas em questão de meses, devido aos diferentes perfis de técnicos que os clubes escolhem em suas várias trocas de comissões técnicas ao longo de uma temporada.

    Se o clube tiver uma convicção clara do que quer para seu futebol, é apenas questão de mais boa vontade e paciência no início do trabalho, no qual a adaptação é difícil e muitas vezes os resultados não vêm. Lidar com a pressão do torcedor é um ponto sempre difícil, mas a convicção não pode ser abalada na primeira situação de tensão. Isto é fundamental para um exemplo como o do Bétis poder prosperar.

  • Luiz Fernando Doering 04 / 10 / 2017 Responder

    Acredito que seja possível propor o jogo mesmo em equipes de menor expressão e de menor poderio financeiro, desde que tenhamos alguns pré-requisitos. Para propor o jogo de modo efetivo me parece necessário que a maioria dos jogadores do elenco possua um nível alto de inteligência tática, que os possibilitaria de compreender os conceitos (linha defensiva, saída de 3, perde-pressiona) e realizar a leitura dos momentos do jogo estando dentro de campo. Equipes que contam com vários jogadores de raciocínio rápido e inteligentes tendem a montar esquemas táticos que funcionam melhor, mais rápidos e mais mortais.

    Em termos de Brasil, em que pese seja possível propor o jogo, acredito que esbararemos na limitação cognitiva dos nossos atletas. A esmagadora maioria dos nossos jogadores teve pouca ou nenhuma instrução quando crianças e acabam pulando diversas etapas durante a sua formação, o que os leva a optar sempre pelo improviso e pela jogada individual, muitas vezes por sequer compreender os conceitos propostos ou pela impossibilidade de fazer a leitura da parte no decorrer da mesma.

    Se queremos que o jogo evolua no Brasil, precisamos começar a dar atenção para a formação (inclusive intelectual) dos nossos atletas de base, para que cheguem ao nível profissional em condições não apenas de jogar em alto nível técnico, mas compreender o que está sendo proposto e o porque de estarmos jogando de determinada forma.

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