A TÁTICA EM PAUTA NO JORNALISMO

Por Caio Alves

No futebol, o Brasil é conhecido por ser o maior campeão mundial, além de e revelar bons jogadores constantemente. Por longos anos o brasileiro acabou por usar esses jargões e argumentos a seu favor, desmerecendo outros times, jogadores, seleções e campeonatos. Em resumo, tudo o que saía do Brasil era melhor que o de fora.

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Com a fatídica goleada para a Alemanha, na Copa do Mundo de 2014, o país passou a tratar o Brasil como inferior aos demais. No Jornalismo, mesas redondas e programas de debate valorizaram ainda mais os fatores que envolvem o futebol como um todo, abrindo mão de clichês e sensacionalismo. Alexandre Lozetti, setorista da Seleção Brasileira pelo GloboEsporte.com, Gabriel Corrêa, repórter do Grupo Bandeirantes e integrante do Projeto Footure, e Léo Gomide, repórter da Rádio Inconfidência e comentarista da Rádio 98, destrincham a pauta.

A busca pelo estudo do jogo, bem como analisar as equipes taticamente, especialmente no jornalismo esportivo, não é novidade. Cabe ressaltar, porém, que a goleada sofrida para a Alemanha tornou-se a válvula de escape e um dos principais propulsores deste movimento. Para Gabriel Corrêa, as grandes mídias esportivas optam por análises rasas e estereótipos pela questão econômica: “Hoje, as empresas de comunicação sofrem financeiramente para manter a grade de programação. Não por acaso, a briga, hoje, é por audiência, não conteúdo de qualidade”.

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Com as análises táticas mais presentes na grande mídia, surgiram e cresceram os jornalistas que buscam responderos porquês do jogo. Renato Rodrigues e Paulo Calçade, da ESPN, PVC, da FOX Sports, e André Rocha e Leonardo Miranda, com seus blogs em UOL e GloboEsporte.com, respectivamente, prezam pelo conteúdo mais analítico. Alexandre Lozetti, que contribui para esse crescimento, concorda, mas afirma haver “muito bom jornalismo fora do mundo da tática”: “Há repórteres excelentes que não possuem uma leitura apurada do jogo, mas produzem grandes reportagens, publicam notícias exclusivas, compreendem o lado humano do jogo, se relacionam muito bem e transformam isso em conteúdo rico ao público. Houve um momento, e talvez ainda haja, de uma incompreensível briga entre bons repórteres e bons analistas táticos. Ambos têm valor inestimável e deveriam fazer trabalhos complementares em vez de tratar o outro lado em tom destrutivo”.

Não somente para debater com propriedade, estudar futebol, principalmente para quem trabalha neste meio (setoristas, por exemplo), é importante para identificar ideias em treinamentos, fazer questionamentos em entrevistas coletivas, bem como transmitir a informação correta ao torcedor. “[Analisar] ajuda a entender as decisões dos técnicos, jogadores, dirigentes. É muito mais fácil perceber o assunto sobre o qual se está reportando quando você entende o porquê das ações e dos gestos. Técnicos, obviamente, conhecem mais futebol do que eu. E conhecem muito melhor aquele ambiente em que trabalham diariamente. Então, eu me sinto ridículo quando simplesmente acho que ele errou. Preciso ter um argumento para debater, preciso entender por que ele tomou uma decisão que acabou não tendo resultado. Medir conhecimento com o técnico ou o jogador sem ter qualquer conhecimento é constrangedor”, esclarece Lozetti.

Para o jornalista, estudar todo e qualquer tópico que envolva a pauta é de suma importância. No futebol, onde as atualizações são constantes e tudo muda da noite para o dia, isso se torna ainda mais essencial. Naturalmente, Léo Gomide opta pelo conhecimento ao senso comum: “Sem o estudo, fico alijado de avaliar algo. Eu preciso ler, observar, conversar, debater para adquirir conhecimento. Preciso tentar entender os “porquês” do jogo. Confiar apenas no senso comum é obsoleto. Como posso tecer um comentário ou formular uma pergunta para técnico ou jogador se não entendo os princípios do jogo? E os princípios do jogo não são as regras do esporte. É tudo que cerca a estratégia de uma partida, do gesto tático ao técnico. Vejo como primordial eu conseguir enxergar isso. Procuro fazer cursos, como já fiz o de Gestão Técnica, de Tática e Modelo de Jogo, da Universidade do Futebol. Fiz um de Análise de Desempenho, da UFMG”.

Alexandre Lozetti faz parte do núcleo de cobertura do São Paulo, mas, como setorista diário do clube, foi ainda mais presente. Hoje, é menos constante justamente por ser responsável pela cobertura da Seleção Brasileira, onde evoluiu muito mais a sua leitura e entendimento do jogo. Para ele, aliar o interesse público e a informação é primordial: “Eu sempre gostei de tática, desde criança. Sempre abordei, com maior ou menos profundidade e frequência, desde que ainda trabalhava no LANCE!. Mas a base de qualquer coisa que eu faça é a informação. Eu só me sinto seguro ao transmitir algo ao público se eu souber exatamente sobre o que estou falando. E o tempo me apresentou pessoas e recursos que me possibilitam aprender cada vez mais e usar cada vez mais. Quanto mais eu absorvo, mais eu repasso. É a minha função. Sem falar na questão do público. Uma das bases do Jornalismo é o interesse público. Quanto mais as pessoas se interessarem, mais fundo poderemos ir”.

Justamente por fazer parte do Projeto Footure, Gabriel Corrêa busca estudar e ler sobre o jogo cada vez mais, deixando de depender apenas do acaso: “Eu sempre vi o jogo como algo totalmente emotivo e sem muita explicação, mas, cada vez que via uma partida, eu buscava entender o que estava acontecendo, como aquele time “pior” estava vencendo o outro. Hoje, eu gosto de dizer que cada vez que leio mais sobre tática, técnica, mental ou algo relacionado ao futebol neste sentido, menos eu sei sobre o jogo. Eu não gosto de depender do acaso para entender o jogo, então, essa foi minha grande motivação a partir do momento que entrei no jornalismo”.

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