A CONMEBOL CONFIRMOU SEDE ÚNICA PARA AS FINAIS DE 2019. E AGORA?

Por Léo Parrela

A grande novidade do futebol sulamericano, nesta semana, foi o anúncio oficial da mudança nos torneios organizados pela Conmebol: agora a Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana serão disputadas em jogos únicos em sede pré-definida, num sistema semelhante ao que a UEFA faz com a Liga dos Campeões e Liga Europa. Para 2019, as finais serão disputadas em Santiago (Copa Libertadores) e Lima (Copa Sul-Americana). A decisão é, no mínimo, controversa.

Primeiro pelas dimensões do continente. As distâncias percorridas pelos clubes são muito maiores do que os deslocamentos realizados pelos europeus – que claramente é o exemplo tomado. Depois, temos as formas que os torcedores terão para se deslocar: sem uma malha ferroviária, a alternativa será o transporte rodoviário ou aéreo, que será caro e desgastante. A questão da logística reflete diretamente no torcedor, uma vez que os clubes não enfrentarão problemas para se deslocar até o local da final. É uma espécie de elitização indireta – que já acontece nos estádios brasileiros, diga-se de passagem.

A Conmebol afirma que a decisão foi tomada “após um estudo rigoroso de critérios, mecanismos, processos de seleção, tendo em conta parâmetros relacionados com: a organização, logística, segurança, tecnologia, aspectos políticos, sociais, ambientais e legais, hospedagem, mobilidade e assuntos comerciais como a transmissão televisiva e comercialização desses grandes eventos”

Fora a questão de logística, a decisão também interfere na cultura do futebol do continente. Antes do esquema conhecido de dois jogos decidindo a Libertadores, tínhamos uma partida desempate: se os clubes que disputassem a final empatassem em dois jogos, uma terceira partida – em campo neutro – seria disputada para coroar o campeão do continente. Nada parecido com a final única foi realizado e a aposta da Conmebol é que a final em jogo único seja mais que apenas um jogo: um evento que movimente a economia local e que leve o interesse do expectador em consumir não só o jogo, mas toda a experiência envolvendo a partida.

A questão esportiva fica comprometida também mediante a escolha do local de disputa. Os países sul-americanos (e alguns pontos do México) são de grandes altitudes, o que prejudica diretamente os times que não estão acostumados as condições climáticas do local. Bogotá (2.640m), Toluca (2.700m), Quito (2.850m), Cusco (3.310m), La Paz (chega até 3.706m) são alguns exemplos de cidades que podem ser cogitadas a final e gerariam esse prejuízo direto à qualidade da partida, uma vez que o calendário não permite que as equipes se aclimatem ao local (a final do torneio acontece simultaneamente à reta final do Campeonato Brasileiro e no meio dos campeonatos nacionais dos outros países – que tem seu calendário adaptado à Europa). Será interessante ver qual o plano para minimizar os danos que o efeito altitude pode causar, além dos já citados problemas de transporte.

Existem no mínimo duas maneiras de analisar essa decisão. A primeira é a tentativa de replicar um modelo de sucesso que acontece na Europa há mais de 60 anos e que gera lucro para todas as partes envolvidas no negócio: cidade sede, Confederação e clubes participantes (já que não arcam com nenhum custo na organização da partida e levam 25% da renda do jogo). Todo mundo sai ganhando financeiramente, o que pesa. Não que as equipes não lucrem com o atual modelo, mas é uma chance de potencializar as receitas.

A outra é decretar o fim de uma parte da tradição do futebol americano. A decisão afastará o torcedor menos favorecido financeiramente dos maiores momentos de glória da equipe que ele torce. Inevitavelmente o clima será diferente no estádio: não terá o calor da torcida organizada no seu setor, fazendo festa para a equipe. As atmosferas que vemos em finais de Champions e Copa do Mundo – bonitas, mas zero identificadas com as equipes em campo – podem se tornar uma tendência.

Para enriquecer a discussão, trouxemos opiniões diferentes do autor, justamente para tentar cobrir todos os pontos de vistas possíveis sobre um tema tão complexo.

Todos as incompatibilidades sobre a final de jogo único em campo neutro na Libertadores já foram ditas. Aspectos econômicos, geográficos, culturais, enfim, nada recomenda. Porém, há algo para se comemorar neste caos, a sede escolhida é legítima, está próxima do coração do futebol sulamericano. Já que a decisão está tomada vamos olhar para frente, torcer para que as ações de marketing que envolvem um jogo destes sejam acertadas e vamos preparar nossos corações e mentes para encarar o caminho de Santiago, em busca da Copa. – Eduardo Dias, apresentador do The Pitch Invaders;

Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-lata” o fenômeno cultural e social de colocar a cultura anglo-saxônica como superior à cultura latina. Até pela proximidade, a América Latina sempre esteve atrelada às tradições culturais dos Estados Unidos, e tenta emular, de um jeito ou de outro, o que acontece por lá. No futebol é o mesmo. A sede única na final da Libertadores, que acontece pela primeira vez em Santiago, no ano que vem, é mais um passo desse viralatismo, que agora copia o hegemônico no futebol – a Liga dos Campeões. Acontece vários fatores que jogam contra essa apropriação: começa na distância geográfica – a Europa têm 49 países encolhidos numa área bem menor que a do Brasil, o que possibilita trajetos de um local a outro de forma rápida e barata. A final única, lá, é tradição há tempos, incluindo nas supercopas locais. Por fim, a disparidade econômica – ela sim responsável pelo gap entre América e Europa. Isto não é modernidade. É como se o europeu desse a modernidade travestida de final única e tirasse o que de fato importa – o talento bruto da base. Qualquer semelhança com a relação entre colonizadores e índios, lá em 1500, não é coincidência. – Leonardo Miranda, colaborador do Footure FC, repórter do Yahoo! e colunista no site Globo Esporte;

O tempo vai mostrar qual a tendência. A princípio, existe uma rejeição a mudança – sentimento corroborado por este que vos escreve. Mantenho minha desconfiança em como a Confederação vai conseguir potencializar o futebol no continente e por não acreditar nos anúncios.

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